Arquivo | junho 2012

Ser feliz

Já sinto falta deste tempo de agora.

Aprendi, na viagem da vida,

encontrar dentro do todo a felicidade de ser

e a registrá-la sabendo-a.

Sou feliz neste meu momento, sabendo e sentindo que o sou.

Nada a ver com nada, tudo a ver com o todo.

E percebo, cada vez mais,

que gosto muito de estar comigo

e preciso de pouco pra ser feliz.

São tão pequenas as grandes coisas que me fazem bem!

Árvores dançando seus galhos ao vento,

beija-flor sugando água doce na janela,

meus ascendentes e descendentes em paz,

vozes infantis nos seus brinquedos de rua,

uma voz de pai cantando para o filho,

sons que me chegam pelo vento ameno.

Suave esta tarde.

Doce meu dia.

Tão bom, tão completo, que já sinto falta

deste tempo de agora,deste dia que se acaba.

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Infância que os tempos não trazem mais

Hoje recebi uma mensagem que falava de um passado feito de visitas, passeios a pé e coisas do gênero que, infelizmente, hoje já não se usa mais.

E senti uma emoção muito forte relembrando meus tempos de menina criada em Poços de Caldas, interior de Minas Gerais.

Por muitas vezes a gente passa grande tempo sem nem pensar ou lembrar fatos corriqueiros de nossa vida anterior e, de repente, algo chega e bate forte. E revivi cenas que me deixaram profundamente tocada. Meu velho pai debruçado sobre o móvel da sala – que era chamado tager e hoje chamam Buffet – ouvindo o rádio de madeira, grandão, movimentado a válvulas, que pegava até o Egito e ele ouvia programas em árabe. Após o jantar que era servido no mais tardar às 19h, quando ele já havia fechado sua loja, tomado banho, colocado o roupão  e tomado seu aperitivo sentado no terraço olhando as montanhas, todos se vestiam caprichados e saíamos, a família completa, para uma visita a amigos. Passeio a pé, atravessando os jardins lindos daquela cidade, chegando e sendo muito bem recebidos com muito carinho e atenção.

Papai, geralmente sentava-se com o amigo para um jogo de Buraco e mamãe conversava com a amiga que servia docinhos, bolos, café ou chá. As crianças logo se entrosavam e saiam pra brincar no quintal ou mesmo na calçada em frente à casa. Se chovia, sentavam-se por ali e jogavam jogos de tabuleiro. Essas visitas nunca eram marcadas com antecedência, mas a recepção era sempre calorosa, com demonstrativos de prazer por serem prestigiados com a inesperada chegada. Da mesma forma, quando era o contrário e visitas chegavam em casa inesperadamente, eram retribuídos com  o mesmo carinho e alegria.

E lembrando dessas passagens também me vem à mente como eram chamadas algumas peças do mobiliário das casas. O Buffet de hoje que era tager, lembra a penteadeira que então recebia o nome de pichichê. Uma peça que era obrigatória nos banheiros de então era o bidê que com o advindo do chuveirinho perdeu muito de seu uso para a higiene íntima. Na sala era de costume se ter um relógio com carrilhão que tocava a cada 30 minutos toques  mais curtos e na hora inteira  todos seus acordes. Os homens elegantes usavam relógios de bolso com lindas correntes aparentes e as mulheres exibiam relógios de pulso com  pulseiras trabalhadas geralmente em ouro.

Com tudo isto que me veio à mente, lembrei-me também das noites de verão quando a maioria das famílias saia pra sentarem-se nos bancos de jardim e lá ficavam por horas conversando com amigos, ouvindo músicas tocadas no coreto da praça principal. A criançada corria solta e tranqüila por todos os cantos, brincando de roda, lenço atrás, passa-anel, pique, telefone sem fio, estátua, barra manteiga, amarelinha e outras brincadeiras da época.

Não se ouvia falar em assaltos, roubos, sequestros relâmpagos ou violências tão usuais nos dias de agora. Vivia-se com paz, tranqüilidade, sorriso nos lábios, calma na alma e no convívio. O tempo não corria tão célere e a chegada de cada Natal era esperada por todos e parecia demorar um tempo sem fim.

Não é nostalgia derramada, mas um lamento de que os tempos mudaram e tudo se tornou tão áspero na vivência. Lamento que os filhos e netos  dessa geração que curtiu tanta coisa boa, não tenham tido esta oportunidade de vivenciarem coisas que apesar de tão simples  ficam indeléveis na lembrança. E ao mesmo tempo causa espanto que tão de repente tudo tenha se modificado tanto. Aquelas pequenas coisas que davam tanto prazer se diluíram no tempo e no espaço  e deram lugar a tantas outras que não conseguem ter a beleza e pureza  que encantam uma vida.

Ruídos da noite

A noite vai crescendo e se adentrando.

Logo será madrugada nesse mundo em que vivo.

Os cachorros latem na vizinhança.

Um aqui, outro lá…

Devem se falar, quem sabe.

E eu fico ouvindo sem entender.

Ouço ruídos que assustam, mas quando vou averiguar,

eram só ruídos da noite, ruídos do trivial

que à noite, quando o silêncio se faz, eles se tornam reais.

Por vezes me assusto e o coração dispara e a adrenalina se esparrama.

De repente penso que o medo é besteira.

Nesta terra em que vivo,

se algo ocorrer de mais drástico, nem nada vai me livrar.

Mas, se tudo for nada, amanhã vou olhar o dia com toda a força

de um ser que renasce.

Bem sei disso e assim vou fazendo meus dias.

É um tal de acordar, tentar me ligar,

sair, trabalhar, falar, atender, responder,

concordar, emudecer, dar, retroceder, ir e voltar.

Não crer e ficar.

Fingir e calar.

Atender a pedidos e me esvaziar.

Deus meu! que doidice!

Que vontade eu tenho, por vezes, de dar um grito de basta!

De olhar pras pessoas, ouvir, calar e, de repente, gritar:

o que é que eu tenho com isso? por que acham que vou acreditar?

estou cheia! cheíssima dos problemas de todos!

eu também existo, eu também tenho os meus!

meu vazio é maior do que o seu! talvez porque seja o meu,

mas, por favor, me dê licença, me conceda o direito

de dizer que também não estou bem!

por favor, deixe que eu peça ajuda,

deixe que eu fale, deixe que eu sinta!

Ou melhor, deixe que eu transmita que sinto, percebo, sofro, e choro.

Deixe que eu possa por pra fora que sou gente – só gente.

Não sou muro de arrimo, não sou de concreto,

não sou feita de estrutura metálica.

Eu existo como todos!

Tenho altos e baixos.

Tenho fraquezas dentro da fortaleza.

Tenho medos na minha coragem.

Tenho necessidades!

Não sou só poço.

E até no poço, um dia a água se acaba.

   27/fev/1980

Contentamento


“Contentamento é o brilho de ser livre. 

É ter a clareza e a convicção para ver que, além do presente existe um bom futuro, não só para mim, mas para tudo.

Sentir nos ossos que o movimento inteiro da vida é em direção ao que é bom, sentir que todas as montanhas têm seus vales, que todos os desertos têm seus oásis.

Uma face contente segue a longa jornada de tornar tudo melhor.”

Brahma Kumaris

A história que queria contar

Eu queria muito, muito, escrever uma história.

Com começo, meio e fim, detalhes especiais.

Diálogos inúmeros.

Falas. Sentimentos. Dizeres.

Queria tanto contar uma história!

Personagens tenho, muitos.

Dizeres sei, demais.

Escrever aprendi.

Falar, também sei.

Colocar letras em papel já aprendi faz tempo!

Digitar, meu Deus, como sou boa nisso!

E o que falta?

Aprender a dar um sentido.

Sentido a um conto e não consigo!

Perco-me no tempo e espaço.

Eu quero tanto contar uma história!

E a história é tão grande e real!

Se conseguir colocar no papel

o tanto que tenho dentro de mim, vai ser bom.

Bom demais!

A história é boa. O tema atual.

Contar tudo será legal!

Tanto e tanto, que talvez o título seja:

“Bom demais!”

Ou, “Nem tão bom assim!”

Ou, “Como é Ser Bom Demais?”

Só preciso saber contar.

Com princípio, meio, detalhes e fim.

E quem sabe o melhor título seja:

“Princípio, Meio e Fim”.

Ou… “Detalhes”.

Ou, ainda, “Princípio do Fim”.

Ou, “Fim do Princípio”.

Só preciso conseguir escrever.

Iniciar a história.

Continuar o conto.

Contar, dialogar.

Falar, voltar, dizer e sentir.

Preciso contar sobre o que foi, é e será.

Ter um princípio,

contar de um meio,

sentir e deixar fluir um tempo.


Medo

Quanta violência!

Tenho medo e medo demais.

Medo de sair e de voltar.

Medo de ser e até de não ser.

De ser gente nesse mundo todo.

De ser animal nesse mundinho ilustrado.

Medo de ter dinheiro.

E de não ter.

Medo de comer o que se compra.

E de ler sobre o que se come.

Medo de perder a saúde

E ter de ser cuidada pelos que cuidam.

Muito medo.

E é o que preenche meus caminhos.

Onde será que vou desembocar?

APRENDENDO NA VIDA

Já falei em um post anterior (Crônicas/Um Alemão muito especial) sobre  um grande amigo que tive e que sempre tinha coisas que colocava e que eram inesquecíveis,  até porque as citava nos momentos certinhos e que se encaixavam ao que estava acontecendo. Uma delas até anotei e guardei. Estava buscando há alguns dias porque queria inseri-la aqui no blog. Hoje sei que já circulou pela net a ilustração desta história antiga, mas eu aprendi com o velho Friedrich e guardei anotada desde 1994.

É de verdade uma LIÇÃO e que acabo por sempre citá-la nas ocasiões que se aplicam e não são poucas.

Um pardal, cansado da rotina, resolveu partir para novas aventuras.

Voou até uma região gelada. Ficou tão gelado, com dificuldade pra voar, que caiu na neve.

Uma vaca ia passando, viu a triste situação e resolveu ajudá-lo.

Deu-lhe uma cagada grande em cima. Ao sentir-se quente e confortável, o pardal começou a cantar. Um gato ouviu o canto, foi lá, tirou-o da merda e o engoliu.

MORAL: 

1.      Quando estiver cansado da rotina, cuidado com novas aventuras, para não entrar numa fria.

 2.      Nem sempre quem caga sobre você é inimigo.

 3.      Nem sempre quem o tira da merda é amigo.

 4.      Quando se sentir quente e confortável, ainda que esteja na merda, conserve o bico calado.

 5.      Quem está na merda não canta. ”