Infância que os tempos não trazem mais

Hoje recebi uma mensagem que falava de um passado feito de visitas, passeios a pé e coisas do gênero que, infelizmente, hoje já não se usa mais.

E senti uma emoção muito forte relembrando meus tempos de menina criada em Poços de Caldas, interior de Minas Gerais.

Por muitas vezes a gente passa grande tempo sem nem pensar ou lembrar fatos corriqueiros de nossa vida anterior e, de repente, algo chega e bate forte. E revivi cenas que me deixaram profundamente tocada. Meu velho pai debruçado sobre o móvel da sala – que era chamado tager e hoje chamam Buffet – ouvindo o rádio de madeira, grandão, movimentado a válvulas, que pegava até o Egito e ele ouvia programas em árabe. Após o jantar que era servido no mais tardar às 19h, quando ele já havia fechado sua loja, tomado banho, colocado o roupão  e tomado seu aperitivo sentado no terraço olhando as montanhas, todos se vestiam caprichados e saíamos, a família completa, para uma visita a amigos. Passeio a pé, atravessando os jardins lindos daquela cidade, chegando e sendo muito bem recebidos com muito carinho e atenção.

Papai, geralmente sentava-se com o amigo para um jogo de Buraco e mamãe conversava com a amiga que servia docinhos, bolos, café ou chá. As crianças logo se entrosavam e saiam pra brincar no quintal ou mesmo na calçada em frente à casa. Se chovia, sentavam-se por ali e jogavam jogos de tabuleiro. Essas visitas nunca eram marcadas com antecedência, mas a recepção era sempre calorosa, com demonstrativos de prazer por serem prestigiados com a inesperada chegada. Da mesma forma, quando era o contrário e visitas chegavam em casa inesperadamente, eram retribuídos com  o mesmo carinho e alegria.

E lembrando dessas passagens também me vem à mente como eram chamadas algumas peças do mobiliário das casas. O Buffet de hoje que era tager, lembra a penteadeira que então recebia o nome de pichichê. Uma peça que era obrigatória nos banheiros de então era o bidê que com o advindo do chuveirinho perdeu muito de seu uso para a higiene íntima. Na sala era de costume se ter um relógio com carrilhão que tocava a cada 30 minutos toques  mais curtos e na hora inteira  todos seus acordes. Os homens elegantes usavam relógios de bolso com lindas correntes aparentes e as mulheres exibiam relógios de pulso com  pulseiras trabalhadas geralmente em ouro.

Com tudo isto que me veio à mente, lembrei-me também das noites de verão quando a maioria das famílias saia pra sentarem-se nos bancos de jardim e lá ficavam por horas conversando com amigos, ouvindo músicas tocadas no coreto da praça principal. A criançada corria solta e tranqüila por todos os cantos, brincando de roda, lenço atrás, passa-anel, pique, telefone sem fio, estátua, barra manteiga, amarelinha e outras brincadeiras da época.

Não se ouvia falar em assaltos, roubos, sequestros relâmpagos ou violências tão usuais nos dias de agora. Vivia-se com paz, tranqüilidade, sorriso nos lábios, calma na alma e no convívio. O tempo não corria tão célere e a chegada de cada Natal era esperada por todos e parecia demorar um tempo sem fim.

Não é nostalgia derramada, mas um lamento de que os tempos mudaram e tudo se tornou tão áspero na vivência. Lamento que os filhos e netos  dessa geração que curtiu tanta coisa boa, não tenham tido esta oportunidade de vivenciarem coisas que apesar de tão simples  ficam indeléveis na lembrança. E ao mesmo tempo causa espanto que tão de repente tudo tenha se modificado tanto. Aquelas pequenas coisas que davam tanto prazer se diluíram no tempo e no espaço  e deram lugar a tantas outras que não conseguem ter a beleza e pureza  que encantam uma vida.

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4 pensamentos sobre “Infância que os tempos não trazem mais

  1. Palavras que me recordam a minha infancia,que foi muito boa,pena que os tempos mudaram.Lindas recordações.Agradeço-lhe tbém pela Yasmin,beijos.

  2. Excelente matéria conterrânea Sonia, eu também nasci ai em Poços de Caldas, cidade linda e hospitaleira, talvez você tenha ouvido falar da família Taconi e família Bonifácio de Carvalho tios e primos meus ai de Poços que moram na rua Goiás. Abraços,

  3. Bom o encontrar por aqui, caro amigo e conterrâneo. Não estou lembrada dos sobrenomes de sua família, mas é muito bom reencontrar pessoas daquela terra que amo tanto. Não nasci lá mas fui pra lá nenê e só saí já moça. Mas é meu sonho dourado e ainda volto a morar lá. Apareça sempre por aqui que será um prazer o contato. Abraço,

  4. Oi, Soninha! Belas recordações, hein?
    Sim! O que passou, passou… Vivemos outros tempos e estas lembranças nos esmagam por dentro!…
    Um forte abraço da Marisa

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