Minha idade é assunto meu

O peso psicológico e social dos aniversários pode ter um impacto limitador na vida das pessoas. A solução é se livrar dos estigmas

Carina Martins, iG São Paulo

A recusa da jornalista Glória Maria em revelar sua idade já se tornou célebre. Para ela, isso não é assunto. Mas as pessoas continuam perguntando e querendo avaliar se ela está “bem” para a faixa etária, seja lá o que isso signifique. E, enquanto perguntam, nos últimos dois anos a jornalista tirou um período sabático, reorganizou sua carreira, namorou e tornou-se mãe. Não é pouca coisa em nenhuma fase da vida. Na semana passada, fez aniversário: 61 anos, supostamente. Será que teria feito tanta coisa se tivesse passado o mesmo período contando aniversários e com medo da faixa oficial da “terceira idade”? Sim, os números podem causar tanto ou mais impacto psicologicamente do que na quantidade de rugas. “Depende da forma como as pessoas encaram as coisas. Nossa sociedade valoriza a juventude e as datas acabam pesando. Quantas garotas que chegam aos 30 anos solteiras me procuram desesperadas e se casam com o primeiro tonto que aparece?”, diz a psicóloga Olga Tessari, autora do livro “Dirija Sua Vida Sem Medo” (Ed. Letras Jurídicas).A ideia de que existem coisas permitidas, proibidas e obrigatórias direta e exclusivamente relacionadas à idade cronológica pode causar danos que vão desde escolher um marido qualquer, como no caso das pacientes de Olga, até prejuízos reais à saúde. Um estudo realizado pela North Carolina State University mostrou que idosos tinham um desempenho muito pior em testes de memória quando tinham sua idade apresentada como um fator relevante. Aqueles que diziam acreditavam que idosos tinham memória ruim iam ainda pior.Para evitar um desgaste desnecessário além dos inevitáveis cabelos brancos (que, como qualquer outra consequência de envelhecimento, chegam para cada um em idade e quantidade diferente), Olga sugere que as pessoas, especialmente as mulheres, se permitam descartar o julgamento que os outros podem fazer da data impressa em seu RG. “A pessoa que vive em função da idade na verdade está preocupada com a opinião dos outros. Quem não revela a idade ou não pensa nisso pouco se importa com o que os outros falam”, diz. Não se importa com o que os outros falam nem com as metas estabelecidas externamente para cada faixa etária.Mas mentir o número de aniversários é ainda pior. “Se você mente, é porque tem medo da crítica do outro”, alerta a psicóloga. A solução, portanto, seria fazer como Gloria Maria e tratar a idade como assunto realmente pessoal. “Ou assumir e deixar claro que o que os outros acham que você deveria estar fazendo na sua idade não te interessa”, diz.

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