“O cérebro de Buda”

Por que faz bem incorporar o que é bom

Recentemente li o livro “O Cérebro de Buda” – neurociência prática para a felicidade – Ed. Alaúde – de Rick Hanson (neuropsicólogo) com Richard Mendius (neurologista). Os autores ressaltam questões importantes que todos nós precisamos saber para sentir mais felicidade.

A primeira é o fato de que muito do que vemos “fora de nós” é criado pelo cérebro, como os efeitos da uma computação gráfica num filme. Nosso cérebro cria uma realidade virtual, pois possui uma extraordinária capacidade para representar tanto a vivência interior como o mundo externo. Por exemplo, os pontos cegos à direita e à esquerda do campo visual não têm forma de buraco no mundo exterior; na verdade, o cérebro os preenche. Neste sentido, os autores explicam que “o cérebro simula o mundo – cada um de nós vive uma realidade virtual próxima o suficiente da realidade para não nos chocarmos com o que estiver pela frente”.

Intuitivamente, sabemos que cada um vive a sua realidade. Afinal, é por esta razão que existem tantos conflitos de relacionamentos. Mas, vamos deixar a realidade “dos outros” um pouco de lado e ver como podemos melhorar a nossa realidade interna?

Para tanto, Rick Hanson e Richard Mendius enfatizam a importância de dedicarmos mais tempo para absorver o que é bom. Simples assim: transformamos fatos positivos em experiências positivas. A questão é que quanto mais tempo algo é retido na consciência e quanto mais estimulante emocionalmente isso for, mais neurônios disparam e se conectam e maior é o rastro na memória.

Ao incorporar o que é bom, criamos uma banco de imagens positivas que serão recursos preciosos quando estivermos diante de experiências dolorosas. Pois elas serão mais facilmente superadas por vivências boas que representem o seu oposto. Por exemplo, vamos lidar melhor com uma situação de vulnerabilidade se nos lembrarmos de outras vezes em que fomos capazes de nos erguer após uma queda semelhante.

“É preciso ter experiências positivas para querer repeti-las”, disse Guelek Rinpoche. Esta é uma das muitas frases que já escutei dos lamas tibetanos e guardo em meu arquivo de recursos pessoais. Como aceitar dar continuidade a um relacionamento, emprego ou seja lá o que for se só tenho experiências negativas?

Mas o ponto a ressaltar aqui é que nosso cérebro é projetado para mudar por meio de experiências, especialmente as negativas. Hanson e Mendius escrevem: “O problema é justamente este: o cérebro busca, registra, armazena, recorda e reage preferencialmente às experiências desagradáveis; é igual a velcro para as negativas e teflon para as positivas”… “Em virtude da tendência à negatividade do cérebro, é preciso um empenho ativo para interiorizar as experiências positivas e cicatrizar as negativas. Tender para o que é positivo é, na verdade, a correção de um desequilíbrio neurológico”.

Portanto, se quisermos preencher os pontos cegos de nossa realidade interna e externa com memórias positivas é melhor esticarmos o tempo de reconhecimento dos momentos positivos de prazer e satisfação. Toda vez que assimilamos uma experiência, construímos uma nova estrutura neural.

Se nos mantivermos por tempo demasiado pensando negativamente, iremos reforçar os caminhos destrutivos com que já convivemos com familiaridade. Assim como Lama Gangchen nos fala: “A realidade é criada pelos nossos pensamentos. A convicção de que os outros nos tratam mal atrai exatamente a mesma energia e comportamento para nós mesmos”.

Não é preciso esperar situações “especiais” de prazer e alegria para esticarmos o reconhecimento dos bons momentos em que vivemos. Podemos começar com os pequenos prazeres do cotidiano, como o de tomar um banho e alimentar-se. Podemos parar alguns momentos para rastrear as sensações de nosso corpo a qualquer momento do dia ou quando vamos dormir.

Peter Levine, o criador da abordagem terapêutica naturalista Experiência Somática® voltada para a prevenção e tratamento de traumas escreve em seu livro “Uma voz sem palavras” (Summus Editorial): “A capacidade de se manter focado e conseguir aprofundar essa concentração é uma habilidade magnífica que traz grandes recompensas, mas é adquirida passo a passo e causa frustrações. Em geral, quando as pessoas conseguem entrar em contato com o corpo, primeiro são atraídas para uma região dolorida”. Levine ressalta a importância de aprendemos a reconhecer que, mesmo com o corpo tenso, sempre há um lugar menos tenso ou mais relaxado que será a porta de entrada para um vórtice de cura.
Treinar a mente a reconhecer a calma de certas partes de nosso corpo, mesmo quando estamos ansiosos e, em seguida, esticar o tempo deste reconhecimento de bem-estar, são meios eficazes para desacelerar o sistema nervoso nos estados de ansiedade e nos ajudam a ficar no aqui e agora, sem que nos deixemos levar pelas associações com sensações passadas.

Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® – Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer não se improvisa, O livro das Emoções, Mania de sofrer e recentemente O sutil desequilíbrio do estresse, todos pela editora Gaia. belcesar@ajato.com.br

 

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