Quero explodir!

Pintar, escrever, falar, fazer algo que me transmita.

Criar, procriar, gritar, fazer algo que eu sinta.

Muito dentro de mim, debatendo-se como prestes a nascer,

não sei o que é.

Não sei como sou, do que sou, não sei como me vêem,

olho todos sem entender.

Se corro não chego, se paro não vou.

Tenho um encontro comigo no tempo.

Algo há de romper, abalar e crescer.

Vou explodir ou implodir, bem sei.

Algo restará dos cacos ou as migalhas serão um todo.

Oxigênio só não me integra e completa.

Não sei viver como todos e sei que algo tem em mim.

Sou um ponto no tempo, um tempo de angústia, um tempo vazio.

Preciso ser! Preciso explodir!

Um velho um dia me disse: Al Maktub

e guardei comigo para a explosão.

Buscaram em mim a menina, fizeram de mim a mulher.

Falaram de amor comigo, fizeram-se sonhar.

Buscaram a carne em mim, chamaram-me Electra.

Busquei a infância perdida, encontrei falsidade.

Falei de estrelas e vida, chamaram-me tola.

Quiz então a carne, disseram-me volúvel.

Tentei procriar, creram-me irresponsável.

Quero explodir – riem.

Quem são, o que são, de que são feitos, pra onde vão?

Fazer o feijão, suar o rosto, brigar, lutar, invejar, subir,

sem ao menos se descobrirem.

Um dia o pó virá e cobrirá  seus corpos mutilados.

Cada ruga será cova profunda e ficará a lembrança e a saudade.

Mais algum tempo passará e nem nos mais próximos restará algo.

São os que esquecem de explodir ou nem sabem da explosão.

Sei que sou porque vim. Mas vir pra não ser é inexistir.

Algo existe para que eu faça e cumpra. Preciso explodir!

Cada dia mais me exalto com os cordiais: bom dia, boa tarde, prazer, até logo,

olá!, alô!, tudo bem?

É vazio e falso demais.

Nem tão lindo o dia – tenho sono.

Nem tão boa a tarde – estou cansada.

Nenhum prazer – nem o conheço.

Até logo – posso morrer em seguida.

Alô… olá – composição de letras e sons

Como podem estar bem se o ar é poluído, a água impura, o dinheiro é curto,

as necessidades aumentam, existe miséria e mentiras?

Sou pequena e frágil, repleta de medos absurdos.

Chego a ser infantil. Por vezes minha sombra me assusta.

Só preciso explodir dentro do mundo, desse mundo em que vivo, onde dizem que existo.

Senão serei só passante, cova eterna dos detritos.

SK/71

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3 pensamentos sobre “Quero explodir!

  1. Meu aplauso!

    Um dos melhores poemas que já li em toda minha vida!
    De certo modo é difícil fazer essa confissão, mas é preciso que se faça.

    Vou reler mais umas duas vezes, e depois volto a comentar. Talvez amanhã.

    Mas já deixei uma resposta a você lá no blog Mude.
    Esta:

    Sonia Kahawach,
    A criança que sou vive levantada… rs!
    Aliás, quando me acordo, quase sempre de madrugada, eu me acordo duplamente, como já disse alguns dias atrás. Saio de um estado onírico de vigília para entrar em outro, mais onírico ainda!

    Lembrarei do café pra você.

    Flores…

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