Entre uma nuvem e uma pedra

Tinha em minha sala um quadro que mandei colocar moldura em aço escovado e vidro, de autoria de um artista japonês que não me lembro mais o nome contendo, o desenho meio em sépia, uma grande pedra plantada na terra e uma nuvem passando no céu. Eu gostava muito desse quadro e ninguém entendia bem o porquê. Também nunca me dei muito ao trabalho de explicar meus gostos. Um dia, por um lapso qualquer, desancou da parede e o vidro se espatifou e a moldura se soltou toda. Tenho até hoje a gravura enrolada aguardando por novo enquadramento que ainda não me animei. Lembro que ficava muitas vezes olhando o quadro, perdida em pensamentos, o que é muito usual em mim – perder-me em pensamentos, sonhar acordada, desligar do ambiente e viver outras paragens em solitude total. Ouvi muitas vezes que só eu compraria uma gravura assim… Tudo isto tem muito tempo, mas fui buscar lá algo que tinha escrito a respeito da nuvem e da pedra, talvez numa tentativa de justificar meu gosto meio extravagante.

Entre uma nuvem e uma pedra: eu.

Entre brumas, um pássaro voando livre, uma fumaça solta no ar.

Só amor, só vida, só anseio.

Uma nuvem que o vento empurra, que os segundos alteram,

que as formas se alternam.

Compacta e leve como só uma nuvem.

Etérea, solta, sem rumo, densidade só aparente,

oscilando no espaço, levada na brisa.

Tão doce, tão macia, tão nuvem.

E a pedra seca, estática, observando tantas nuances.

Altiva em sua fortaleza, quase permanente em sua mutação.

Quase um nariz erguido, uma pose segura e altiva.

O tempo e o vento transformarão tudo.

Fará pó e levará a nuvem.

Quem ou o que será mais real?

Tanta matéria ou tanta forma efêmera?

A ave que é vida acompanhando em voo a nuvem descansará seu ninho

e capacidade de reprodução na pedra.

O homem passará e em devaneios se perderá olhando a nuvem,

descansando sua cabeça na pedra.

A nuvem, chuva em formação, molhará a pedra e a desgastará.

E a peça inerte, lenta em alteração chegará nunca a se verter na nuvem.

Será só fixação, pose altiva.

Entre a nuvem e a pedra: eu.

Olhando a nuvem, vendo a pedra.

Sem definição, sem enquadramento. Só eu.

Nem nuvem nem pedra. Só nuvem só pedra.

Um pássaro no espaço livre.

No meio olhando, no alto acompanhando, na pedra tecendo ninho,

no mundo tecendo espaço, amando, vivendo, sorrindo, chorando.

Sendo nuvem em mutações, pedra em necessidade,

fumaça na formação, pássaro na ansiedade, vida na integridade.

Eu no meio sendo vida na  na essência, sendo alento na efemeridade,

sendo amor no espaço, sendo espaço na vida.

Entre uma nuvem e uma pedra: eu.

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5 pensamentos sobre “Entre uma nuvem e uma pedra

  1. Não consegui uma nuvem e uma pedra igual ou parecida com minha gravura. O mais próximo era essa imagem e então saiu aí levitando mesmo. Fico feliz quando gostam do que escrevo, principalmente alguém com a sua cabeça e vivacidade. Obrigada! Beijos

  2. Gostei muito!
    Também eu, às vezes, valorizo uma imagem sem saber por quê. Mas sempre há uma razão, é claro.

    O título e o último verso do teu poema me deixaram pensando se o verbo envolvido no duplo sentido seria mais o ser ou o estar.

    Vou ficar pensando, nesta madrugada que ainda nem começou…
    Flores.

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