Arquivo | novembro 2012

Quem são os loucos?

Quando a gente fica pensando, analisando fatos, conversas, escritos, dá até pra pensar que a vida é realmente uma grande loucura que compartilhamos com outros. Designar como loucos é nominar pessoas que, na maioria das vezes, só vivem um mundo que nem todos conseguem ver.”A normalidade é uma ilusão imbecil e estéril” (Fernando Pessoa)

Acho que cada um tem sua maneira específica de ver a vida, de agir e reagir frente aos fatos. E ser diferente da maioria não creio que seja loucura. Até pelo contrário, é assumir uma faceta individual com segurança, sem a preocupação que não leva a nada. Dos meus mais próximos já ouvi por algumas vezes que sou fora do contexto. Por exemplo, que sempre fui meio “ripona” no comportamento, na maneira de pensar. Que tenho um raciocínio mais para o masculino do que para o  feminino. São opiniões que, na realidade, não considero elogios nem críticas. Só opiniões.

Considero loucura as guerras, ainda mais quando são de origem religiosa ou lutando por poder que é tão efêmero nesse tempo que passamos neste planeta. Os seres que as deflagram e as mantém, no meu conceito, deveriam arder na fogueira. 

Assim pensando e aceitando que os fora do contexto mais geral (menos tradicionais) são ditos loucos, ainda bem que

loucos

Generosidade

“Receber algo de alguém e então doar algo de volta não é doar de fato.

Se você faz isso, na verdade você está negociando.

Tenha um coração generoso e apenas doe.

Se alguém precisar de felicidade, doe felicidade;

se alguém precisar de afeto, doe afeto;

se alguém precisar de paz, doe paz.

Não economize e doe quanto quiser, porque estes tesouros são infinitos.”

Brahma Kumaris

A palavra

Brenno Spinelli, encantador poeta que habita as terras de Ribeirão Preto, se é que poetas habitam lugares que não sejam as nuvens ou  galáxias nesse Universo tão inexplicável. Como diria lá na terra onde fui criada: “nesse mundão de Deus”. Só agradeço, Brenno, por um poema tão lindo e que posso aqui transcrever.

A palavra do lavrador

caiu na terra arada

e ele, distraído,

passou de novo o arado

e a palavra ficou enterrada…

ou semeada

ou incrustada

ou adormecida.

Se um dia ela germinar

pode crescer

virar discurso

pode virar oração

ou ladainha

ou até reclamação.

Pode ramificar galhos de protesto

ou soltar raízes

de meditação

ou mortificação.

A palavra pode crescer

pode morrer

apodrecer

ou ficar p’ra semente

se ela não for

imediatamente

dita.

As palavras inúteis

iam sendo escritas

na muralha de pedra:

um muro alto, espesso, extenso…

como a Muralha da China,

como o de Berlim.

As palavras de pedra

se incrustavam

entre outras pedras e concreto.

As palavras de plástico

se sobrepunham às palavras de vidro,

às palavras de nuvem,

às palavras de vento,

às palavras de estrela…

Milhões de palavras

se aglomeravam

no intransponível muro.

Palavras de fogo,

palavras de gelo,

palavras de terra…

milhões de palavras

pintavam o muro.

O muro impassível,

o muro passivo,

o muro infiltrado

por tantas palavras

ganhou rachaduras,

abalos sensíveis

em sua estrutura.

O muro rachado,

o muro alquebrado…

Palavras pesadas,

palavras demais…

O muro ruiu.

Meus 20 anos

Parece que foi ontem que eu tinha 20 anos. Sonhava de olhos abertos como creio que toda garota o faz.

Não perdi ainda esta mania, mas naqueles anos tudo era muito mais passível de ver realizados os devaneios todos que me encantavam. Sempre me diverti com a vida, com as pessoas, com o que eu tinha e até com o que carecia.Meu bom humor era patente e latente e, dificilmente, conseguia me atrapalhar por isso.

Namorava sempre que podia – e se não podia, dava um jeito. Amava intensamente, mesmo que hoje perceba que amava o amor mais do que pessoas. Não que brincasse com sentimentos, mas envolvia e era envolvida com intensidade e o que parecia profundo, num lance rápido deixava de ser. Isto talvez criasse dúvidas nas cabeças, talvez pudessem me achar inconsequente, volúvel, irresponsável. Mas pode ser tudo isto nascido de uma forma de ser e sentir?

Eu não era destituída de sentimentos e os trocava pelo que sentia de igualdade. A opção de pensar “para sempre” nunca foi escolhida por mim. E por isto, talvez, não prendi em mim o que poderia hoje ser mais palpável e real.

Respeitava, com carinho e compreensão os limites de cada pessoa e só não permitia que me aprisionassem, que me prendessem com amarras que me sufocavam. Uma questão de sobrevivência tão somente.

Sempre escrevi muito registrando meus sentimentos e hoje, relendo, percebo o quanto me doava em cada relação. Isto era vida existindo em mim. Vivi intensamente os meus 20 anos, com a intensidade que tenho até hoje em meus sentimentos.

Não sou feita de diminutivos e os superlativos acabam sendo sempre percebidos. Não sei ser mais ou menos. Nem sei muito sobre o pouco. Quando gosto sempre é muito, assim como quando desgosto só elimino de meu sentir e deixo zerado o sentimento. Estou sempre me renovando, com uma alma que tem sede de se projetar e se lançar nos abismos mais profundos, bem como tem a coragem de se retrair e voltar ao ponto inicial.

Fiquei ouvindo Aznavour cantar Hier Encore e fui me perdendo nos sonhos e lembranças. Bem próprio de mim como sempre. E me ficou a certeza de que não joguei meu tempo no espaço sem sentido, mas o vivi com toda a força e verdade que cada tempo tem. Os anos passam céleres e a gente nem percebe. Quando vê a realidade já é outra, mas os sonhos…. ah! esses permanecem.

Separação

Lindo poema! Quem já viveu situação semelhante entende bem e sente perfeitamente cada palavra. Construir uma vida até que não é difícil, mas desconstruí-la é penoso e dolorido. Mesmo que haja motivos consideráveis, a sensação é de vazio, de perdas, de um castelo construído na areia. Lógico que o tempo cura tudo, afinal nada é para sempre. Somos nós também passageiros. 

 

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
– pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo               
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

Affonso Romano de Sant’Anna

(O jornalista e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna (foto) descreve no poema “Separação”,tudo quanto acontece quando se desmonta a casa e o amor: sentimentos,momentos,conversas,filhos, vizinhos,perplexidade,futuro,indecisão, etc. (comentário de Oswaldo Amaral / blog Idade Certa de onde retirei a transcrição do poema)