A palavra

Brenno Spinelli, encantador poeta que habita as terras de Ribeirão Preto, se é que poetas habitam lugares que não sejam as nuvens ou  galáxias nesse Universo tão inexplicável. Como diria lá na terra onde fui criada: “nesse mundão de Deus”. Só agradeço, Brenno, por um poema tão lindo e que posso aqui transcrever.

A palavra do lavrador

caiu na terra arada

e ele, distraído,

passou de novo o arado

e a palavra ficou enterrada…

ou semeada

ou incrustada

ou adormecida.

Se um dia ela germinar

pode crescer

virar discurso

pode virar oração

ou ladainha

ou até reclamação.

Pode ramificar galhos de protesto

ou soltar raízes

de meditação

ou mortificação.

A palavra pode crescer

pode morrer

apodrecer

ou ficar p’ra semente

se ela não for

imediatamente

dita.

As palavras inúteis

iam sendo escritas

na muralha de pedra:

um muro alto, espesso, extenso…

como a Muralha da China,

como o de Berlim.

As palavras de pedra

se incrustavam

entre outras pedras e concreto.

As palavras de plástico

se sobrepunham às palavras de vidro,

às palavras de nuvem,

às palavras de vento,

às palavras de estrela…

Milhões de palavras

se aglomeravam

no intransponível muro.

Palavras de fogo,

palavras de gelo,

palavras de terra…

milhões de palavras

pintavam o muro.

O muro impassível,

o muro passivo,

o muro infiltrado

por tantas palavras

ganhou rachaduras,

abalos sensíveis

em sua estrutura.

O muro rachado,

o muro alquebrado…

Palavras pesadas,

palavras demais…

O muro ruiu.

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