A conquista do tempo

eu em pb

Eu cheguei numa idade em que a alegria da vida, qual uma bola descendo a ladeira, parecia me escapar das mãos. De repente, senti-me feia, esquisita, sem graça. Apesar de minha mente e meu coração estarem em plena forma, meu corpo já não responde com a mesma intensidade.

Se saio para bater papo com os amigos, fico morrendo de vontade de voltar para a minha casa, os meus chinelos e o meu confortável sofá, em frente à televisão.

Meus cabelos estão brancos e meu rosto coberto de rugas que nem os cremes miraculosos conseguem disfarçar.

Minha pele já não é tão elástica, apenas meus olhos teimam em brilhar. Perguntei-me se era isso que era a velhice! Uma sensação de ser invisível, um sentimento de não importância, de descartável, angustiante, mas principalmente revoltante.

Rapazes e moças bonitos e “com tudo em cima” me davam nos nervos. Passavam por mim como se eu fosse um poste e sua condescendência preconceituosa, se lhes dirigia a palavra, me exasperava. Eu queria conversar sobre flores, passarinhos, livros, sentimentos, relacionamentos, gente e vida.

Eles queriam conversar sobre computadores, pós-graduação, cursos de línguas, shows de bandas, tecnologia e feriadões em praias apinhadas de gente.

Então me dei conta de que a velhice estava dentro da minha cabeça, forçando a porta, tentando entrar com aquela roupa fora de moda, aquela resignação prematura e aquele olhar humilhado. E que eu tentava me relacionar com quem estava começando a caminhar, quando eu já havia percorrido mais da metade do caminho.

Eu já viajei de carona, já me balancei em lugares esfumaçados e barulho ensurdecedor, já sonhei em morar no exterior, já pensei em morar numa vila de pescadores, já voltei para casa de manhãzinha, já curti ressacas, já participei de passeatas e já quis reformar o mundo, mas agora quero mesmo é o sossego e o conforto da minha sala e o meu pijama quentinho. Quero a tranquilidade do meu jardim e da minha rua, quero a rotina conhecida e a vida sem sobressaltos, para curtir minha aposentadoria das surpresas.

Dei-me uma sacudida.

De leve, para não perder o equilíbrio, o que não é tão difícil na minha idade. Resolvi virar a mesa, dar-me o devido valor e não me deixar influenciar por essa ideia pré-concebida de que, depois de certa idade, já não há mais do que chazinhos, cobertores, solidão, filmes antigos, lembranças e sensação de impotência.

Primeiramente, deixei os jovens com suas descobertas, sentimentos de tudo-saber e tudo-poder, tesão e ansiedade paraA luz se fez lá e fui procurar minha turma. Que é de gente que tem na experiência um baú de papos agradáveis e conversas recheadas de calor humano. Gente com quem é maravilhoso sentar-se, recordar momentos agradáveis e rir dos fatos acontecidos ao longo do caminho. E gente com quem é maravilhoso compartilhar novas ideias e planos para o futuro, como escrever um livro ou passar um fim de semana naquele hotel aconchegante daquela cidadezinha tranquila. Que não acha estranho considerar um sábado chuvoso, acompanhado de um bom livro e uma xícara de chá, um dia magnífico. Que adora uma janta que comece as oito, para se estar em casa à meia-noite. Que ama o silêncio e sabe que a felicidade está nas coisas simples e comuns, como um pão com manteiga, os patos num lago, um passeio de mãos dadas, uma música melodiosa.

É maravilhoso não se precisar mais usar máscaras! É maravilhoso apaixonar-se e saber-se amado pelo que se é e não pela aparência. É maravilhoso fazer amor sem se preocupar com guerras de beleza ou competições de desempenho! É maravilhoso o amor verdadeiro no lugar da paixão passageira! É maravilhoso ter amigos que nos admiram pelo que somos e não pelo que temos ou poderemos ter.

É fantástico ter certeza! É incrível ser mestre da escola da vida!

Deixei aquela bola rolar ladeira abaixo. Era a bola da incerteza e da insegurança, do medo do desconhecido, da necessidade de impor-se, da luta pela conquista de um lugar ao céu.

Não era absolutamente a bola da alegria de viver. Eu apenas não tinha me dado conta de que minha vida agora tem outro significado e importância, outras prioridades e preferências.

Sou mais eu mesma, mais madura, muito mais privilegiada.

girassoisDepois de certa idade, há que percorrer um caminho menos pedregoso, menos agitado, menos movimentado, mas justamente por isto, podemos curtir melhor a paisagem e até nos sentar num banco à beira do caminho de vez em quando, para sentir o cheiro da terra molhada, para ver o azul do céu e para ouvir as batidas do nosso coração, mais amoroso, compreensivo, em paz. E mais cheio de expectativas do que nunca.

(Sara Maria Binatti dos Anjos)

Incrível como uma mulher consegue retratar a maioria das que já caminharam pela vida afora e têm consciência de sua realidade. 

Esta matéria é o resumo do que grande parte das mulheres gostariam de expressar. Eu, pelo menos, me vejo exatamente aqui retratada com todas as vírgulas, parágrafos e pontos. SK

 

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18 pensamentos sobre “A conquista do tempo

  1. SK,

    Eu cá cheguei por ter lido e gostado de um comentário seu no blog Mude…

    … e já comecei me emocionando por não tão de repente, mas recente, me sentir feia, esquisita, sem graça. Acho que esqueci de avançar a “idade física”, porque já adoro um jantar que começa às 19h, para estar em casa às dez.

    Incrível mesmo como Sara retratou o que ainda não tinha percebido e vou perceber mais agora.

    Um beijo,

    Tamara

  2. Bom conhecê-la, Tamara. Espero que tenha aqui outras matérias que também lhe agradem.
    Pareceu-me pela foto que v. ainda é muito jovem pra ter preocupações como as comentadas neste
    post. Mas, de qualquer forma, curta muito a vida enquanto ela se manifesta em seu coração, pois tudo é muito rápido. Grande beijo

  3. Eu tenho percebido que, o que tenho por dentro nao e o que transparece por fora. Mas as pessoas me tratam conforme a minha aparência. Então acabo me comportando da forma como elas me tratam… O perigo e eu sair dando “pancada” por aí…

  4. Sara, meus sinceros Parabéns.,…Parabéns pelas verdades nuas e cruas, porém verdadeiras e sinceras de uma pessoa que como eu também vive todo esse tipo de pensamentos, quase que diariamente.,,,porém nunca luta constante, para me ver diferente,,,,mais jovem e sempre sorridente, que é uma das minhas peculariedades…Ora rio, das brincadeiras dos meus netos…ora choro, quando algo acontece com eles, por mais que sejam coisas ínfimas…bobagenzinhas, de criança, porém, para mim, uma batida de cabeça numa quina de parede, ou um tombo…(normal…) onde há ferimentos ou pancadas que doem seus corpinhos tão indefesos….Tudo isso me machuca profundamente…
    Mesmo que um prato de comidinha, feita com tanto carinho por mim…. fique inteiro em cima da mesa do almoço…. para mim, dói saber que aquela criaturinha tão amada… não experimentou nada…só porque…. bem… sei lá …´por que….mas que não teve vontade…
    Sou sim preocupada com quem amo… com todos… inclusive com meus amigos da net…
    Quando algo acontece, com algum deles, fico me remoendo, sem poder ajudar.,sem poder fazer-lhes um cafunèzinho na cabeça, ou mesmo, um beijo na testa….
    Dizem., que são coisas de velhos…de pessoas com idade avançada…Tudo bem que sejam mesmo… mas quem já viveu o tempo que vivi….já viu de tudo um pouco… e assim por diante…. Não vou me atrever a deixar teu blog Sonia, repleto com minhas preocupações….rsrsrs….Agradeço o espaço para o desabafo….Você é uma boa alma, minha amiga Sonia….Admiro demais a sua pessoa….

    Beijos da
    Lisa

  5. Marilis querida, acho que estamos aqui pra nos ajudarmos, pra conter os desabafos, pra tentar melhorar esse mundinho que habitamos. Perdoe palpitar na sua vida, mas não sublime tanto filhos e netos. Viva mais sua vida, mesmo que seja chatinha por vezes, que não encontre muita graça em alguns dias. Filhos e netos caminham por suas vidas e estão no tempo deles. Entendo seus sentimentos de delicadeza e preocupação com eles, mas não deve – na minha humilde opinião – mantê-los como o mais importante pra você, sentindo suas dores, suas inapetências, seus sentires.

    Obrigada por suas carinhosas palavras e seja sempre muito bem vinda aqui e em outras formas de contatos que temos.
    Quanto ao cigarro é uma praga mesmo em minha vida e sou fumante desde os 12 anos. Sei de todos os males que pode causar mas…… perseverar sempre é …….

    Grande beijo e carinhos.

  6. Realmente ela fala quase como eu. E expôs tudo de uma forma que eu exporia, v. sabe.
    Tenho escrito tanta coisa só como comentários de outros que anda difícil sentar pra me escrever. Ainda hoje estava fazendo um apanhado de comentários meus em textos de outros e deu 7 páginas, acredita?
    Obrigada pelo carinho de sempre.
    Carinhos

  7. Aquela jovenzinha? Minha irmã gêmea rsrs Falando sério, estou no firme propósito (ainda no firme) de parar com este vício horroroso em todos os aspectos. Nos últimos dias diminui bastante e creio que logo mais consigo o abandono total. E depois lhe conto até o porquê. Abração

  8. Sou exatamente o xerox dessa pessoa.E também do que disse sua amiga
    Marilis e também do amigo Oswaldo. Lembre-se das nossas muito queridas
    Idene e sua filha Neide que se foram antes que deveriam.
    Mas continue com essa cabeça privilegiada que vc. tem.
    Já pensou como é a cabeça dessas mulheres que não leem um livro , um jornal e só entendem de alho e cebola?
    Um grande abraço com beijos.

  9. E v. também continue sempre com essa cabeça linda e mantendo os interesses que mantém. Só para meus amigos saberem, essa mulher – Enide – é irmã de minha tia Idene que ela comentou acima. Está com 88 anos e é uma pessoa incrível. Aliás podem notar pelo que escreveu. Tenho o maior carinho e admiração por ela. Beijos e aquele abraço gostoso, querida Enide.

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