E a mãe ficou velhinha

Chorei lendo esta crônica.

lágrimas no mundoChorei de saudade de minha mãe, chorei por mim – a mãe já ficando velhinha.

Chorei pelos cuidados que os filhos possam ter, pelos sentimentos que se acaba por provocar.

Chorei pela viagem a Poços de Caldas que também juro que é de caldas de doce.

Chorei pela sensação de que a vida passa e passa tão rápido que nem se sente e, de repente…… quantas mudanças nas atitudes, no semblante, nas pequenas coisas que fazem o dia a dia.

É tudo tão novo no tempo que chega que, quando se lê uma matéria assim, para-se e pensa: Mamãe envelheceu!

Sonia K.

folha envelhecida

Dá aflição saber que a mãe, sempre tão firme em sua marcha, agora precisa caminhar com mais calma.

JÁ VINHA botando reparo havia algum tempo: cada vez mais cedo ela dormia durante nossas sessões de cinema em casa ­-até no filme do Marley, o labrador arteiro que ela amava, foi assim.

Começou a faltar a ela aquela força de sempre para me dar uma empurradinha pelas calçadas esburacadas. Ganhou um desequilíbrio do nada e uma saudade de tudo. Mamãe envelheceu.

Dá uma certa aflição, não vou fazer rodeios para admitir, saber que a mãe, sempre tão firme em sua marcha aplicada com um sapato baixinho e confortável, que buscava o sustento, o futuro e a felicidade dos filhos, agora precisa caminhar com mais calma e cuidado.

Meu coração ficou como no momento do samba derradeiro, dias atrás, quando entrou pelo corredor do restaurante uma senhorinha esbaforida, com a mão machucada, semblante de susto e passinhos de quem havia passado maus bocados. E havia passado. Caiu no meio da rua. Estava entre a aflição da dor e a carência de algum aconchego.

E se a minha mãe, agora velhinha, desabasse em um algum ermo de mundo também? Será que a acolheriam com a atenção e a presteza que a mãe da gente tem o direito de receber? E se ela ficasse meio descompensada e não soubesse nem em que planeta estava?

O almoço perdeu a graça e eu só pensava nas feridas da senhorinha, que foi gentilmente atendida com cuidados orientais das mãos da dona do boteco, uma “japa” sorridente. Sosseguei quando ela garantiu que estava tudo bem e que cuidaria da velhinha.

Mãe não tem dor de cabeça, não tem fome, não tem preguiça de fazer mingau, não tem medo de barata, não tem limite no cartão para emprestar um dinheirinho, mas, de repente, ela envelhece e faz o filho pensar que ela pode sofrer sim.

Lá em casa, mamãe nunca foi “rainha do lar”. Estava mesmo é para Margaret Thatcher em meio a contas para pagar, bocas para encher, uma criança com deficiência para dar jeito. Logo, quando vi Meryl Streep interpretando a “Dama de Ferro” já cansada, abatida pelo destino irrefutável da idade, quis dar um Oscar pelo conjunto da obra para a minha “santa”.

Tudo é possível na velhice e ser velho é conquista, jamais um demérito para quem sabe aproveitar a existência. É que o tempo vai passando e ficoo anjo envelheceu aflito por diversas ocasiões de amor que ainda não vivi com minha mãe – nem a viagem para Poços de Caldas, que ela jura ser de caldas de doces, fizemos.

Não queria vê-la frágil, por mais bonita que seja a pétala. Não queria vê-la cansada, por mais nobre que seja o vencedor de maratonas. Não queria que jamais a senhora caísse, mãe, por mais que, como você a vida toda disse: “Quem não cai não aprende a se levantar”.

Jairo Marques, jornalista pós-graduado pela PUC-SP, é repórter de Cotidiano e professor universitário. Cadeirante desde criança, mantém o blog “Assim como Você” e escreve às terças, a cada duas semanas, na versão impressa de “Cotidiano”.

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5 pensamentos sobre “E a mãe ficou velhinha

  1. Oração do Tempo
    Caetano Veloso

    És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho
    Tempo, tempo, tempo, tempo, vou te fazer um pedido
    Tempo, tempo, tempo, tempo
    Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos
    Tempo, tempo, tempo, tempo entro num acordo contigo
    Tempo, tempo, tempo, tempo
    Por seres tão inventivo e pareceres contínuo
    Tempo, tempo, tempo, tempo és um dos deuses mais lindos
    Tempo, tempo, tempo, tempo
    Que sejas ainda mais vivo no som do meu estribilho
    Tempo, tempo, tempo, tempo ouve bem o que te digo
    Tempo, tempo, tempo, tempo
    Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso
    Tempo, tempo, tempo, tempo quando o tempo for propício
    Tempo, tempo, tempo, tempo
    De modo que o meu espírito ganhe um brilho definido
    Tempo, tempo, tempo, tempo e eu espalhe benefícios
    Tempo, tempo, tempo, tempo
    O que usaremos pra isso fica guardado em sigilo
    Tempo, tempo, tempo, tempo apenas contigo e migo
    Tempo, tempo, tempo, tempo
    E quando eu tiver saído para fora do círculo
    Tempo, tempo, tempo, tempo não serei nem terás sido
    Tempo, tempo, tempo, tempo
    Ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos
    Tempo, tempo, tempo, tempo num outro nível de vínculo
    Tempo, tempo, tempo, tempo
    Portanto peço-te aquilo e te ofereço elogios
    Tempo, tempo, tempo, tempo nas rimas do meu estilo
    Tempo, tempo, tempo, tempo….

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