Arquivo | março 2013

Resiliência

 

limão limonada

 

Que tal transformar um limão em uma deliciosa limonada?
Na vida as coisas também podem ser assim

“O problema não é o problema. O problema é sua atitude com relação ao problema.”
(Kelly Young)

Hoje a tristeza me visitou. Tocou a campainha, subiu as escadas, bateu à porta e entrou. Não ofereci resistência. Houve um tempo em que eu fazia o impossível para evitá-la adentrar os meus domínios. E quando isso acontecia, discutíamos demoradamente. Era uma experiência desgastante. Aprendi que o melhor a fazer é deixá-la seguir seu curso. Agora, sequer dialogamos. Ela entra, senta-se na sala de estar, sirvo-lhe uma bebida qualquer, apresento-lhe a televisão e a esqueço! Quando me dou por conta, o recinto está vazio. Ela partiu, sem arroubos e sem deixar rastros. Cumpriu sua missão sem afetar minha vida.

Hoje a doença também me visitou. Mas esta tem outros métodos. E outros propósitos. Chegou sem pedir licença, invadindo o ambiente. Instalou-se em minha garganta e foi ter com minhas amígdalas. A prescrição é sempre a mesma: amoxicilina e paracetamol. Faço uso destes medicamentos e sinto-me absolutamente prostrado. Acho que é por isso que os chamam de antibióticos. Porque são contra a vida. Não apenas a vida de bactérias e vírus, mas toda e qualquer vida…

vida com limãoHoje problemas do passado também me visitaram. Não vieram pelo telefone porque palavras pronunciadas ativam as emoções apenas no momento e depois se perdem difusas, levadas pela brisa. Vieram pelo correio, impressos em papel e letras de baixa qualidade, anunciando sua perenidade, sua condição de fantasmas eternos até que sejam exorcizados.

Diante deste quadro, não há como deixar de sentir-se apequenado nestes momentos. O mundo ao redor parece conspirar contra o bem, a estabilidade e o equilíbrio que tanto se persegue. O desânimo comparece estampado em ombros arqueados e olhos sem brilho, que pedem para derramar lágrimas de alívio. Então, choro. E o faço porque Maurice Druon ensinou-me, através de seu inocente Tistu, que se você não chora, as lágrimas endurecem no peito e o coração fica duro.

Limão e Limonada

As Ciências Humanas estão sempre tomando emprestado das Exatas, termos e conceitos. A última novidade vem da Física e atende pelo nome de resiliência. Significa resistência ao choque ou a propriedade pela qual a energia potencial armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão incidente sobre o mesmo.

Em Humanas, a resiliência passou a designar a capacidade de se resistir flexivelmente à adversidade, utilizando-a para o desenvolvimento pessoal, profissional e social. Traduzindo isso através de um dito popular, é fazer de cada limão, ou seja, de cada contrariedade que a vida nos apresenta, uma limonada, saborosa, refrescante e agradável.

Aprendi que não adianta brigar com problemas. É preciso enfrentá-los para não ser destruído por eles, resolvendo-os. E rapidamente, de maneira certa ou errada. Problemas são como bebês, só crescem se forem alimentados. Muitos deles resolvem-se por si mesmos. Mas quando você os soluciona de forma inadequada eles voltam, dão-lhe uma rasteira e, aí sim, você os anula corretamente. A felicidade pontuou Michael Jansen, não é a ausência de problemas. A ausência de problemas é o tédio. A felicidade são grandes problemas bem administrados.

Aprendi a combater as doenças. As do corpo e as da mente. Percebê-las, identificá-las, respeitá-las e aniquilá-las. Muitas decorrem não do que nos falta, mas do mal uso que fazemos do que temos. E a velocidade é tudo neste combate. Agir rápido é a palavra de ordem. Melhor do que ser preventivo é ser preditivo.

Aprendi a aceitar a tristeza. Não o ano todo, mas apenas um dia, à luz dos ensinamentos de Victor Hugo. O poeta dizia que “tristeza não tem fim, felicidade sim”. Porém, discordo. Penso que os dois são finitos. E cíclicos. O segredo é contemplar as pequenas alegrias ao invés de aguardar a grande felicidade. Uma alegria destrói cem tristezas…

Modismo ou não, tornei-me resiliente. A palavra em si pode cair no ostracismo, mas terá servido para ilustrar minha atitude cultivada ao longo dos anos diante das dificuldades, impostas ou auto-impostas, que enfrentei pelo caminho, transformando desânimo em persistência, descrédito em esperança, obstáculos em oportunidades, tristeza em alegria.

Nós apreciamos o calor porque já sentimos o frio. Apreciamos a luz porque já estivemos no escuro. Apreciamos a saúde porque já fomos enfermos. Podemos, pois, experimentar a felicidade porque já conhecemos a tristeza.

Olhe para o céu, agora! Se é dia, o sol brilha e aquece. Se é noite, a lua ilumina e abraça. E assim será novamente amanhã. E assim é feita a vida.

Tom Coelho , com graduação em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP e especialização em Marketing pela MMS/SP e em Qualidade de Vida no Trabalho pela FIA/USP, é empresário, consultor, escritor e palestrante, Diretor da Infinity Consulting, Diretor do Simb/Abrinq e Membro Executivo do NJE/Fiesp.

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Soberania

árvore de borboletasNaquele dia, no meio do jantar, eu contei que  tentara pegar na bunda do vento

— mas o rabo do vento escorregava muito e eu não consegui  pegar.

Eu teria sete anos.

A mãe fez um sorriso  carinhoso para mim e não disse nada.

Meus irmãos  deram gaitadas me gozando.

O pai ficou preocupado  e disse que eu tivera um vareio da imaginação. 

Mas que esses vareios acabariam com os estudos.  E me mandou estudar em livros.

Eu vim. E logo li  alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.  E dei de estudar pra frente.

Aprendi a teoria das ideias e da razão pura.

Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande  saber.

Achei que os eruditos nas suas altas  abstrações se esqueciam das coisas simples da  terra.

Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo — o Alberto Einstein).

Que me ensinou esta frase:  A imaginação é mais importante do que o saber. 

Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira.

Botei  um pouco de inocência na erudição. Deu certo.

Meu  olho começou a ver de novo as pobres coisas do  chão mijadas de orvalho.

E vi as borboletas.

E meditei sobre as borboletas.

Vi que elas dominam  o mais leve sem precisar ter motor nenhum no  corpo. (Essa engenharia de Deus!)

E vi que elas  podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas.

E vi que o homem não tem soberania  nem pra ser um bentevi.

Manoel de Barros – “Memórias Inventadas – A Terceira Infância”, Editora Planeta – São Paulo, 2008,

Tristeza permitida

É incrível como a gente pode se identificar com algumas escritoras ou com alguns temas que elas abordam! De jeito nenhum quero me comparar a deliciosa forma que a Martha Medeiros tem de escrever, mas ela fala tão como me sinto e como eu me expressaria falando sobre o que ela aborda, que me misturo nas suas falas. Fico curtindo seus escritos e me espraiando em seus textos, deliciosamente.

vovozinha

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

divã do poeta“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down…” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

Martha Medeiros

Chás


FORMA CORRETA DE PREPARO:

 “Desligue o fogo assim que a água começar a ferver e acrescente duas colheres de sopa para um litro ou duas colheres de chá para cada 250 ml. Abafe por três a cinco minutos e coe”.

ARMAZENAR SEMPRE NA GELADEIRA OU NA GARRAFA TÉRMICA E JAMAIS REAQUECER.

capim cidreira

Capim cidreira Essa erva é aliada do sistema digestivo e ainda ajuda a aliviar gases. “É um chá ótimo para ser tomado depois das refeições por pessoas que tem problemas de digestão”. Também l serve de calmante, como se fosse um sedativo natural.

Camomila De ação calmante, a camomila é boa para combater ansiedade e insônia e tem sido muito usada para aliviar a enxaqueca. “Essa opção é muito indicada no período da TPM, já que ajuda a amenizar cólicas, além da ação calmante”. A pessoa que quiser dormir melhor à noite pode misturar uma colher de camomila e outra de erva cidreira, para um efeito sedativo melhor”.

Hortelã Essa folhinha de aroma revigorante serve como antiparasita e antifúngica, ou seja, ajuda a matar bactérias ruins, principalmente do intestino, e auxilia pessoas que estão com complicações de gases. Melhora a digestão, combatendo azias.

Alecrim“É um digestivo excelente, melhor ainda do que a hortelã”. É muito usado para ajudar pessoas que querem controlar o peso, pois aumenta a sensação de saciedade.

Tem ações antipasmódica e anti-inflamatória – boas para cólica renal e menstrual -, ação antifúngica – ótima para ajudar a mandar embora o fungo cândida do organismo – e ação desintoxicante. “É um verdadeiro tônico para o fígado”.

Erva doce O aroma dessa erva é muito usado como forma de relaxante. O chá, além de propiciar esse benefício, também ajuda no combate a cólicas e gases, além de melhorar a digestão.

Chá mate Tem ação termogênica e antioxidante, bom para acelerar o metabolismo e evitar o envelhecimento precoce. É preciso um cuidado, apenas, com o seu poder estimulante, por conter cafeína. “Pessoas com hipertensão precisam evitar exageros, porque o chá mate aumenta a circulação e ainda pode irritar ainda mais a parede do estômago de quem tem gastrite”.

Chá de canela A canela pode ser uma ótima aliada no controle de diabetes. Ajuda na redução da glicemia, regulando o açúcar no sangue. Além disso,  ajuda a diminuir a vontade de comer doces e melhora a circulação.

Um estudo, realizado pelo Kansas State University, nos Estados Unidos, constatou que consumir meia colher de sopa por dia de canela ajuda a regular o colesterol. Os pesquisadores acreditam que tal redução é resultado da ação dos antioxidantes, que ajudariam a eliminar parte da gordura ruim que ingerimos com maior rapidez.

Chá verde Esse é mais um chá campeão. “É desintoxicante, ajuda a fortalecer o sistema imunológico, previne problemas cardiovasculares por controlar o colesterol e ainda tem vários princípios ativos que ajudam na prevenção do câncer”.

Ajuda a combater cáries – basta fazer bochechos com ela – e serve de protetor solar interno, ajudando a proteger a pele contra raios ultravioletas. Tomar o chá, no entanto, não dispensa o uso do protetor solar externo.

O chá verde também é muito famoso pela ação termogênica, ou seja, acelera o metabolismo na queima de gorduras e pode contribuir para quem quer perder os quilos extras. Mas vale lembrar que a bebida não é milagrosa e nem ajuda a emagrecer sozinha – sempre é preciso aliar uma dieta equilibrada com exercícios físicos.

Chá de hibisco Ajuda no controle do colesterol e é muito diurético, capaz de fazer uma varredura de toxinas no organismo. “Ele ajuda a eliminar gordura e pode ser uma boa opção para hipertensos, porque tem menos cafeína que o chá verde, mas benefícios semelhantes”.

O fator que torna o chá de hibisco aliado do combate ao excesso de peso é a ação anti-inflamatória. “A bebida ajuda a diminuir a inflamação da obesidade, que é considerada um estado inflamatório do corpo”.

Chá de gengibre “O gengibre é um dos melhores anti-inflamatório que temos na natureza”. Atua no sistema digestivo contra cólicas e gases e ajuda no combate à celulite, tão indesejada pelas mulheres.  Combate enjoos e náuseas, principalmente em gestantes, que não podem usar muitos remédios durante a fase da gestação.

Chá de limão Além de a fruta ser rica em vitamina C,  tem ação alcalinizante, ou seja, ajuda a deixar o pH do sangue dentro do nível alcalino, que é como ele deve ficar. “Com esse nível estabilizado, não há perda desnecessária de nutrientes e todos os sistemas do corpo atuam da forma correta, garantindo saúde plena”.

Fazer o chá junto com a casca, porque ela tem uma ação muito forte de desintoxicação do organismo.

Maracujá Famoso por ajudar a acalmar os nervos. Combate ansiedade, estresse, insônia, irritação e agitação.

Maçã A fruta também tem ação calmante, além de ótima para ajudar na digestão. Diurética, com efeito laxante.

Chá de alfazema Ajuda a aliviar cólicas. De propriedade calmante e bactericida, a alfazema também é muito usada para amenizar dores de cabeça.

Canção de Mim Mesmo

 A luz se fez

1
Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.

Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranqüilamente, observando uma haste da relva de verão.

Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.

Crenças e escolas quedam-se dormentes
Retraindo-se por hora na suficiência do que não, mas nunca esquecidas,
Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.

2.
Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.

A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.

A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,
O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,

Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?

Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

3.
Eu ouvi a conversa dos falantes, a conversa sobre o início e sobre o fim,
Mas não falo nem do início nem do fim.

Nunca houve mais iniciativa do que há agora,
Nem mais juventude ou idade do que há agora,
E jamais haverá mais perfeição do que há agora,
Nem mais paraíso ou inferno do que há agora,

O anseio, o anseio, o anseio,
Sempre o anseio procriador do mundo.

Na obscuridade a oposição equivale ao avanço, sempre substância e acréscimo, sempre o sexo,
Sempre um nó de identidade, sempre distinção, sempre uma geração de vida.
Não vale elaborar, eruditos e ignorantes sentem que é assim.

Certeza tal como a mais certa certeza, aprumados em nossa verticalidade, bem fixados, suportados em vigas,
Robustos como um cavalo, afetuosos, altivos, elétricos,
Eu e este mistério aqui estamos, de pé.

Clara e doce é minha alma e claro e doce é tudo aquilo que não é minha alma.

Faltando um falta o outro, e o invisível é provado pelo visível
Até que este se torne invisível e receba a prova por sua vez.

Apresentando o melhor e isolando do pior, a idade agasta a idade,
Conhecendo a adequação e a eqüanimidade das coisas, enquanto eles discutem eu mantenho-me em silêncio e vou me banhar e admirar a mim mesmo.

Bem-vindo é todo órgão e atributo de mim, e também os de todo homem cordial e limpo.
Nenhuma polegada ou qualquer partícula de uma polegada é vil e nenhum será menos familiar que o resto.

Estou satisfeito – vejo, danço, rio, canto;
Quando o companheiro amoroso dorme abraçado a mim a noite inteira e depois vai embora ao raiar do dia com passos silenciosos,
Deixando-me cestas cobertas com toalhas brancas enchendo a casa com sua exuberância,
Devo adiar minha aceitação e compreensão e gritar pelos meus olhos,
Para que deixem de fitar a estrada ao longe e para além dela
E imediatamente calculem e mostrem-me para um centavo,
O valor exato de um e o valor exato de dois, e o que está à frente?

4.
Traiçoeiros e curiosos estão à minha volta
Pessoas com quem me encontro, os efeitos que a minha infância tem sobre mim, ou o bairro e a cidade em que vivo, ou a nação,
As últimas datas, descobertas, invenções, sociedades, autores antigos e novos,
Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
A indiferença real ou fantasiosa de um homem ou mulher que eu amo,
A doença de alguém de minha gente ou de mim mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de dinheiro, depressões ou exaltações,
Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem de mim outra vez,
Mas não são o meu verdadeiro Ser.

Longe do que puxa e do que arrasta, ergue-se o que de fato eu sou,
Ergue-se divertido, complacente, compassivo, ocioso, unitário,
Olha para baixo, está ereto, ou descansa o braço sobre certo apoio impalpável,
Olhando com a cabeça pendida para o lado, curioso sobre o que está por vir,
Tanto dentro como fora do jogo, e o assistindo, e intrigado por ele.

No passado vejo meus próprios dias quando suei através do nevoeiro com lingüistas e contendores,
Não trago zombarias ou argumentos, apenas testemunho e aguardo.

(…)

(Walt Whitman – Canção de Mim Mesmo)
(Poema do livro Folhas de relva. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 49. O poema todo é bem maior.)

(Seleção de Fabio Rocha) – Magia da Poesia.

O passado não condena

Li esta crônica hoje e me encantei. É mesmo…. tempos depois, a gente se vê lá atrás e comenta internamente como fui…. como sou…. Nem sempre se condena, mas sempre se percebe as diferenças com o passar dos anos, sempre se surpreende com as mudanças que acabam ocorrendo sem nem percebermos. Gostei da sensação de um balanço a cada cinco anos. Acho que até vou parar pra fazer um de bem mais de cinco anos. E vou anotar minhas constatações. Creio que dará uma boa história.

passagem do tempo

“Há cinco anos eu me detestaria

Eu mal me reconheceria se tivesse acesso a quem sou hoje, com meus tímidos, porém presunçosos vinte e poucos anos. Não vou longe nesta escavação rumo ao passado. Estou tomando como parâmetro aqui, apenas cinco, no máximo sete anos.

É, a verdade é que o moleque daqueles tempos não iria a nenhuma das festas às quais frequento de vez em quando. Ele não estaria ouvindo o bom e velho Tim Maia com a mesma paixão que eu ouço. Ele teria sono ao se deparar com os solos do velho Eric Clapton. Blues dos anos vinte, jazz e ragtime? Não, nem pensar. Vinícius de Moraes, Cartola e Noel Rosa? Só se fosse para dormir.

Ele não olharia aquela menina de óculos como eu olho hoje. Ele não ouviria aquela belezinha de uma cidade remota do sul como eu ouço. Ele sequer consideraria metade das propostas de sossego que me fazem reconsiderar muitos dos meus planos de solteiro para futuros brilhantes. Tenho certeza que não.

Diante de uma destas possibilidades, tenho convicção que ele torceria o seu estranhamente seletivo bico. E olha que ele não era nem de longe alguém na posição de poder escolher. Não mesmo.

Hoje, se ele tivesse a chance de me observar, mesmo que em silêncio, tenho certeza que ficaria enojado ao me ver rezando para ficar em casa aos finais de semana, hibernando até que chegue a segunda-feira. Tenho certeza absoluta que, se um dia ele sonhasse que eu estaria no meio do mato, meditando o dia inteiro em um retiro, ele pediria para ficar paralisado ali mesmo no seu tempo e nunca chegar até onde estou. Quanta chatice!

Tenho certeza também que ele jamais sairia da cidade onde cresceu ou viria morar em São Paulo, a antítese de tudo aquilo que ele considerava uma boa vida. Lembro que ele gostava da sua terrinha. Do conforto de onde estava. Da pseudo-certeza da eternidade das amizades que alimentava até então.

Lembro que ele sonhava chegar aos trinta anos tocando Angra ou Iron Maiden com seus amigos, fazendo churrascos. Comendo muita, mas muita carne. Nem de longe ele se imaginaria vegetariano. Nem de longe ele se orgulharia da posição onde estou agora. Certeza.

Tudo bem, garoto. Eu sei que você não tem culpa. O melhor que você tinha para imaginar o seu futuro eram aqueles gostos, aqueles amigos, aqueles sonhos. A gente esquece que qualquer projeção sobre o futuro é apenas uma reflexão sobre o que temos em mãos no presente, uma extensão da comodidade que a gente vive.

Às vezes, a pior coisa que se pode fazer é ser coerente. É ter medo de ser hipócrita. Querer fazer sentido, se manter fiel às origens. Nem sempre o melhor é ter tanta certeza.

E imaginar que daqui a dez anos vou rir de quem hoje eu penso que vou me tornar.

Porém, meu velho amigo do passado, posso dizer-lhe uma coisa: ser vegetariano em 2013, no bairro de Perdizes, vivendo em São Paulo, não é tão ruim assim quanto lhe parecia naquele comecinho dos anos 2000.

Enquanto você estava aí, achando que ouvir Heavy Metal e variar um pouco os discos com Jet, White Stripes, The Strokes e cantar em uma banda cover de Led Zeppelin eram a coisa mais transgressora do mundo, venho por meio desta carta despretensiosa decepcionar-lhe.

Transgressor mesmo é ser vegetariano e comer no Zé do Hambúrguer. Mesmo sem carne, o melhor hambúrguer de São Paulo.”

LUCIANO RIBEIRO – Editor do PapodeHomem, designer de produtos, apaixonado por ilustração, fotografia e música. Ex-vocalista da banda Tranze (rock’n roll). Escreve, canta, compõe

Lucidez

na corda bamba

“O Homem Lúcido

O Homem Lúcido sabe
que a vida é uma carga tamanha de acontecimentos e emoções que ele nunca se entusiasma com ela
Assim como ele nunca tem memórias

O Homem Lúcido sabe
que o viver e o morrer
são o mesmo em matéria de valor
posto que que a vida contém tantos sofrimentos
que a sua cessação não pode ser considerada um Mal

O Homem Lúcido sabe
que ele é o equilibrista na corda bamba da existência
Ele sabe que por opção ou por acidente
é possível cair no abismo a qualquer momento
interrompendo a sessão do circo

Pode tembém o Homem Lúcido
optar pela vida
Aí então Ele esgotará todas as suas possibilidadades

Ele passeará pelo seu campo aberto
pelas suas vielas floridas
Ele saberá ver a beleza em tudo!

Ele terá amantes, amigos, ideais
urdirá planos e os realizará
Resistirá aos infortúnios
e até mesmo às doenças

E se atingido por um desses emissários
saberá suportá-lo
com coragem e com mansidão

E morrerá, o Homem Lúcido, de causas naturais
e em idade avançada
cercado pelos seus filhos
e pelos seus netos
que seguirão a sua magnífica aventura.

Pairará então sobre a memória do Homem Lúcido
uma aura de bondade
Dir-se-á:
-Aquele amou muito. Aquele fez muito bem as pessoas!

A Justa Lei Máxima da Natureza obriga
que a quantidade de acontecimentos maus na vida de um homem se iguale sempre à quantidade acontecimentos favoráveis

O Homem Lúcido porém
esse que optou pela vida
com o consentimento dos deuses
tem o poder magno de alterar essa lei

Na sua vida, os acontecimentos favoráveis serão sempre maioria…

Porque essa é uma cortesia que a Natureza faz com

Os Homens Lúcidos”

(O texto é uma livre tradução, parte de um Tratado sobre a lucidez, que teria sido escrito no séc. VI a.C, na Caldéia – parte sul e mais fértil da Mesopotamia, entre os rios Eufrates e Tigre) Retirado do blog Fabio Rocha.