Falando com você

mafalda e a vida

 

eu em cores

Hoje eu precisava me sentar e falar.

Falar com pessoas que me encantam, falar com os que nem me conhecem,

falar com os que me amam, com os que nem sabem que existo.

Falar comigo mesma pra contar de mim, pra chorar as lágrimas que engoli,

pra deixar os sorrisos que mantive.

 

Faz tempo que não me expresso escrevendo e isto me faz uma falta enorme. Este ano me pegou de jeito logo no seu início. Em fevereiro, visitando o dentista tive uma surpresa daquelas que nunca gostaria de ter. Ele me encaminhou para um especialista a fim de fazer uma biopsia de um machucadinho que eu tinha no céu da boca, bem lá no fundo perto da viradinha para a garganta. Quando se fala em biopsia, lógico que a gente já espera por algo meio drástico. E não deu outra. Um câncer no palato mole.

Do diagnóstico confirmado para uma série de exames e providências para documentação de forma a encaminhar o tratamento, foi um pulo só. Naqueles dias passei por todos os sentimentos normais pra quem recebe a notícia. Eu sempre tive horror dessa doença, vez que quase toda minha família se foi por causa dela. Meus avós maternos, meus tios e tias, primas e primos e até meu pai. Assisti muito do sofrimento que ela causa. Então era algo que tinha como um horror e já até achava que tinha conseguido chegar à minha idade não precisando conhecê-la de tão perto.

Mas, como se diz popularmente: você traça e Deus destroça. Exatamente!  eu me senti destroçada.

Não consegui chorar tudo o que as lágrimas me entupiam. Mil pensamentos tristes rodando a cada dia. Mesmo sabendo que o tumor era bem pequeno e foi localizado bem cedo, o que permitiria um tratamento imediato e com boas chances de cura, sempre fica aquela dúvida enorme ali cutucando, machucando…

Mas parti para o tal tratamento como devia. Nunca imaginei que fosse algo tão longo e tão crucificante. Achava que seria algo mais rápido e logo estaria boa. Afinal fiz os exames para certificar se não havia outros tumores nas proximidades e deu tudo limpo. Achava então que seria tudo muito rápido para a cura.

Doce ilusão. De fevereiro até agora, mês de agosto, fiquei às expensas do dito cujo. Todos os dias tinha algum procedimento a fazer no CEON-Centro de Oncologia. Tenho de registrar que tive um atendimento cinco estrelas, mesmo sendo tudo pelo SUS. Fui atendida por psicóloga, nutricionista, acupunturista, psiquiatra, fonoaudióloga, médico oncologista quimioterapueta, médica radiologista. E toda uma turma de atendentes e enfermeiras de primeira linha que sempre mantiveram o sorriso e a delicadeza dando força para que cada paciente pudesse se sentir melhor um pouco dentro de tudo que o tratamento já requer de tão ruim.

Como eu teria de passar por 35 sessões de rádio na cabeça, de forma a atingir a feridinha, foi modelada uma máscara de nylon, trançadinha, mais ou menos como aquelas embalagens de mamão ou melão. A tal máscara era bem coladinha ao rosto, permitindo ser presa a um suporte para que não houvesse possibilidade de qualquer mobilidade durante a aplicação, com as marcações feitas para atingir exatamente o alvo.

Nem preciso dizer que fiquei aflitíssima com a bendita e durante as aplicações de pelo menos mais da metade do que era necessário, eu entrava em transe antes de ir para lá e durante. Uma tensão que me consumia. Eu chegava a sonhar com a dita máscara e achava que não ia conseguir chegar ao final. Reclamei, tentei saber se as marcações não podiam ser feitas na pele…. mas nada. Tinha de ser daquela forma até o final.

E assim fui enfrentando com muita dificuldade, me sentindo sem respirar enquanto recebia o tratamento. Teve início ao final de março e a última aplicação se deu ao final de julho. Isto porque a rádio queima, provoca bolhas enormes na língua e todo o interior da boca e início da garganta. É o que chamam mucosite, provocada pelas queimaduras e pelas consequências também da quimioterapia. Aliás, esta última parte do tratamento, a químio me assustava muito mais a princípio, mas até que tirei de letra. Não tive mal estar de estômago, só pequenos enjoos no terceiro dia após cada aplicação e um cansaço grande diferente de qualquer outro que normalmente nos acomete. Fiz seis quimioterapias, sendo as primeiras de 4 horas de aplicação e as últimas duas de uma hora e meia.

Tudo demora muito mais do que a gente espera, pois com os machucados na boca era necessário dar uma pausa de dias para retornar as aplicações. Os machucados são muito doloridos, não se tem condições de comer, causam dificuldades para engolir até saliva. Aliás, saliva se tem muito pouca depois de tais aplicações porque queima as glândulas salivares também. Na boca fica um gosto horrível de ferro enferrujado e não se tem nenhum sabor para nada. E dá-lhe bochechos dos mais diversos remédios para aliviar. Fiquei tão ferida numa das vezes que tive de pausar, que me foi dado antibiótico por sete dias.

No Dia das Mães fiquei feliz porque minhas filhas e netos estavam aqui, a mais velha fez o almoço e a reunião foi ótima, mas acabei chorando porque não podia comer nada de tanta dor.

Tenho de registrar: nunca tinha passado fome em minha vida. Mas nesse período…. quanta fome! Quanta vontade de comer! Como meu estômago gritava de se fazer ouvir por todos mais próximos! Passei muita fome mesmo.

Não me considero uma mulher bonita, mas tinha uma aparência razoável. Com tudo isto fiquei impedida de usar uma prótese dos dentes superiores da frente. Então me vi uma senhorinha sem dentes em cima, o que provocou uma série de rugas fininhas nas faces e pescoço, também devido ter emagrecido 16 quilos. Aliás, de tudo que foi ruim, emagrecer foi algo muito bom. Fiquei com um corpo muito melhor, voltou a cintura que sempre foi fina, apesar do quadril largo de uma descendente de árabes. Pelo menos isto para contrastar com o rosto envelhecido. Não perdi os cabelos porque os remédios da quimio não atacaram esta parte. Menos mal, não é?

Agora estou num recesso de tratamentos. Terminei as aplicações de rádio e químio. Segundo uma visão dos médicos, o tumor cedeu e cicatrizou. Devo aguardar um mês e meio para os efeitos passarem, as bolhas cicatrizarem totalmente na boca, para uma nova avaliação e então ter alta total. Já sei que terei de renovar os exames iniciais e daí pra frente passar a uma avaliação de tempos em tempos. Realmente uma doença que após surgir deve ser controlada e acompanhada para sempre. Mas espero não ter de passar pelos pedaços que passei nunca mais! Por enquanto não consigo me alimentar normalmente devido a ferimentos ainda restantes que incomodam bastante e também porque não sinto gosto nem tenho olfato de nada, afora que também ainda não me acostumei com a quase falta de saliva para ajudar a engolir os alimentos. Vivo muito de vitaminas de frutas com Neston, Chia, Colágeno, pozinhos que alimentam de proteínas e vitaminas.

Cá entre nós, ando morrendo de vontade de comer um bom quibe cru feito por mim, também uns docinhos que sempre amei, os chocolates que nunca me deixei faltar. Mas creio que mais um pouco deverei recuperar o sabor e olfato. Então vai dar para voltar um bom tanto à vida normal.

Eu precisava fazer esse desabafo aqui neste meu cantinho tão amado. Tinha de deixar registrado esse período de minha vida que alterou tudo. Depois de tais fatos a gente se torna outra pessoa. Mais paciente, mais compreensiva, com mais amor por tudo e por todos. Depois que a gente vislumbra a possibilidade de uma morte iminente e com sofrimento, se depara com o medo enorme de não poder dar continuidade aos pequenos detalhes que formam a vida, tudo se altera dentro da cabeça e do coração. Por tudo isto é que me dei o direito de contar, até com detalhes, o que me afastou por um período. Sempre fui muito sorridente e hoje tenho de manter um sorriso “monalisa”, isto é, de boca fechada e tenho de prestar atenção pra não sorrir aberto, vez que ainda sem os dentes superiores, fica um sorriso muito feio rsrsrs. Por isto ainda não saio muito de casa, só o estritamente necessário e procuro não conviver com as pessoas como sempre o fiz.

Após esse desabafo todo, com certeza em mais um pouco de tempo estarei nova para recomeçar ou para dar continuidade a essa minha vida que tanto prezo e amo. E quero estar com todos os meus amados amigos, tomando um vinho nos jardins de Baco ou Epicuro como um querido amigo diz, levando e recebendo flores e estrelas em todos os dias que me restam.

Perdoem se fui desagradável contando tudo isto, mas era necessário pra mim. Espero que entendam.

Enorme beijo a todos que aqui me acompanham e estejam sempre comigo como estarei sempre com cada um, com todo o carinho e amor.

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4 pensamentos sobre “Falando com você

  1. Bravo….
    bravíssimo… aplaudindo em pe, a gloriosa Soninha!!!!!!!!!!!!!!!
    OLha, amiga, eu acompanhei desde o início todos esses passos, e barreiras que você transpôs…e tenho orgulho em saber que tenho uma amiga corajosa, vitoriosa e repleta de vontade de viver… e que como eu também morre de medo da tal doença….e que como eu….adora quibe, cru ou não…
    E que como eu… tem decendêcinia , árabe ou libanesa….e que como eu também gosta de vinho, mas não tomo pq me dá dor de cabeça….)Mas tomo umas cervejinhas….rsrsrs…
    Amiga queria, a única coisa que posso lhe desejar hoje é PARABÉNS….e para o futuro é que Deus a proteja sempre… como sempre o fez e quero que saiba ainda que espero que você saiba, que tem em mim, uma irmã…daquelas que sabem carregá-la no colo.. ou seja… aprendi a te amar tanto , mais tanto… que não dá para explicar….
    Soninha queria…. muito estar aí pertinho , e lhe dar um abraço muiiiiito apertado com todo meu carinho….
    Mas sinta-se abraçada viu?
    Estou aqui…. é só bater que eu respondo….
    te amo… garota!!!!!!!!!!!

    Marilis

  2. Agradeço do fundo do coração tanto carinho. Não me acho corajosa não, querida. É que por vezes ou tem de ser assim ou… tem de ser assim! Mas agora cheguei a um espaço mais tranquilo. Vou me empenhar para que tudo transcorra bem daqui pra frente. Beijos e carinhos

  3. Olha tia , antes de mais nada parabéns pela sua coragem e bravura para vencer essa doença maldita…sei bem como é se sentir perdida e sozinha nessa hora …Mas superamos e vencemos!!
    isso é o mais importante..e que Deus abençoe sua cura.
    Passamos por cada coisa nessa vida !!! e Eu acredito que tudo isso faz parte de um crescimento …
    beijossssssss com saudades.

  4. V. sabe o choque que é quando recebemos a notícia. Fiz tudo direitinho e estou bem. Como o meu foi no palato, a recuperação das sequelas de rádio e quimio têm sido muito difíceis de encarar. Ainda não consigo comer nada concreto. Só vitaminas de frutas e todos os adicionais que posso colocar pra me manter em equilíbrio. Com isto perdi 26 quilos – que aliás foi muito bom, pois eu tinha de sobra rsrsrs Agradeço muito seu carinho e compreensão e adoraria poder revê-la em breve. Enorme beijo carregado de carinho.

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