Arquivo | setembro 2013

Com Asas

casulos e borboletasCasulos… Vários deles apareceram colados à parede de minha casa. Lá dentro, eu sabia, se encontravam lagartas que dias antes haviam comido folhas das plantas do meu jardim. Enquanto dormiam, espantosas transformações aconteciam com os seus corpos. As criaturas aladas que antes moravam nelas apenas como sonhos estavam se tornando realidade. Metamorfoses.

Eu os deixei onde estavam, intocados, e vigiei, pois não queria perder o evento mágico. Tive sorte. Pude ver o momento em que um dos casulos se rompeu. Tímida, fraca e desajeitada, sem saber direito o que fazer com a sua nova forma, uma borboleta apareceu. Suas asas se abriram, mostrando delicados desenhos coloridos.

O tempo não me permitiu ficar, para ver tudo. Quando voltei, ela não estava mais lá. Seguira seu novo destino de voar à procura de flores. Se o mundo da lagarta não era maior que a folha que comia, o universo da borboleta era o jardim inteiro. Iria, flutuando ao vento, por espaços com que uma lagarta não podia sonhar.

Pois é: a Mariana também está saindo do casulo. A cada dia que passa vejo suas asas crescerem: novos desenhos, novas cores, voos cada vez mais distantes. Está se transformando em borboleta. Não! BorboLETRA…

Ela aprendeu a falar, e as palavras lhe deram asas. Até se esqueceu das bolinhas. De repente elas ficaram pouco para o muito que cresceu dentro de sua cabeça. Enquanto brincava com as bolinhas ela não era muito diferente de um gatinho que também gosta de brincar com bolinhas. Seu corpo se movia colado às coisas, rente ao chão. Mas ao aprender a usar as palavras ela começou a voar por espaços infinitos, como a borboleta.

 

Palavras, coisas etéreas e fracas, meros sons. No entanto, é delas que o nosso corpo é feito. O corpo e a carne e o sangue metamorfoseados pelas palavras que aí moram. Os poetas sagrados sabiam disto e disseram que o corpo não é feito só de carne e sangue. O corpo e a Palavra que se fez carne: um ser leve que voa por espaços distantes, por vezes mundos que não existem, pelo poder do pensamento.

 

Pensar é voar. Voar com o pensamento é sonhar.

Lembram-se das palavras de Valéry?

“O pensamento é o trabalho que faz viver em nós aquilo que não existe.”

E ele pergunta: “Mas, que somos nós sem o socorro do que não existe?”

 

 É o poder de sonhar que nos torna humanos.
É nisto que a psicanálise acredita. Somos sonhos cobertos de carne.

Por isto que, diferente dos médicos, que apalpam, olham, examinam e medem os sintomas físicos do corpo, ela se dedica a ouvir as palavras. Pois é nelas que moram as coisas que não existem, os sonhos, os pensamentos que nos fazem voar. Sem prestar muita atenção ao rastejar da lagarta, ela procura ver a forma dos movimentos que a borboleta desenha no ar por meio das palavras.

 

Ela sabe que o visível, a carne, é apenas uma fina superfície em cujo interior existe um mundo encantado. Corpo, lagoa… Na superfície, os reflexos do mundo de fora: as árvores, as nuvens, as montanhas… Mas se, libertados do fascínio dos olhos, pararmos para ouvir as palavras que saem de suas profundezas, como bolhas poderá ter vislumbres de criaturas invisíveis, peixes coloridos, catedrais submersas, plantas desconhecidas, histórias de amor e de terror.

A Mariana aprendeu a falar. Ela ganhou o poder de voar pelos mundos que moram nas palavras. Ouve histórias. Aquelas que sempre foram contadas: Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve… O mundo da sua fantasia se liberta dos limites do casulo. Pouco importa que nunca tenham acontecido, as histórias.

 

“Se descreves o mundo tal qual é”, dizia Tolstoi, “não haverá em tuas palavras senão muitas mentiras e nenhuma verdade”.

 

As palavras nos dizem que estamos destinados a voar, a saltar sobre abismos, a visitar mundos inexistentes: “pontes de arco-íris que ligam coisas eternamente separadas”.
Pelo poder da palavra ela pode agora navegar com as nuvens, visitar as estrelas,
entrar no corpo dos animais, fluir com a seiva das plantas, investigar a imaginação da matéria, mergulhar no fundo de rios e de mares, andar por mundos que há muito deixaram de existir, assentar-se dentro de pirâmides e de catedrais góticas,
ouvir corais gregorianos, ver os homens trabalhando e amando, ler as canções que escreveram, aprender das loucuras do poder, passear pelos espaços da literatura, da arte, da filosofia, dos números, lugares onde o seu corpo nunca poderia ir sozinho…

“Corpo espelho do universo! Tudo cabe dentro dele!”

Não é à toa que a Adélia Prado tenha dito que “erótica é a alma”.   

 Enganam-se aqueles que pensam que erótico é o corpo. O corpo só é erótico pelos mundos que moram nele. A erótica não caminha segundo as direções da carne. Ela vive nos interstícios das palavras.

 Não existe amor que resista a um corpo vazio de fantasias. Um corpo vazio de fantasias é um instrumento mudo, do qual não sai melodia alguma. Por isto que Nietzsche disse que só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar:

 

“Continuarei a ter prazer em conversar com esta pessoa, daqui a 30 anos?”

flores

O corpo de uma criança é um espaço infinito onde cabem todos os universos. Quanto mais ricos forem estes universos, maiores serão os voos da borboleta, maior será o fascínio, maior será o número de melodias que saberá tocar, maior será a possibilidade de amar, maior será a felicidade.

Por vezes, entretanto, acontece uma metamorfose ao contrário: as borboletas voltam ao casulo e se transformam em lagartas. Porque voar é fascinante, mas perigoso.

 

É preciso que não se tenha medo de flutuar sobre o vazio com asas frágeis. É mais seguro viver agarrado à folha que se come.

 

E eu me pergunto sobre o que aconteceu conosco. Pois um dia fomos como a Mariana, borboletas aladas, em busca de espaços sem limites. Talvez, por medo, tenhamos abandonado as asas.

 

Talvez, por medo, já não sejamos capazes de voar e sonhar. Gordas lagartas, que não têm coragem de se desprender das seguras folhas onde rastejam…

 

 

Rubem Alves – A Alegria de Ensinar

O tamanho do problema

“O tamanho de qualquer problema depende do estado da minha mente.

Na verdade, não faz diferença se o problema é grande ou pequeno.

O que importa é como eu o percebo.

Quando minha mente é calma e equilibrada, minha confiança aumenta.

Se eu acredito que posso superar o problema, eu farei isso!”

Brahma Kumaris

“Somos queijo gorgonzola”

Nada, nada mesmo além da valorização pessoal.

Envelhecimento é algo tão pessoal e tão revestido de sentimentos, que acaba sendo inexplicável.

Começamos a envelhecer quando nascemos e deveria ser algo bem natural para todos.

Lógico que tem umas deteriorações de memória, de saúde no geral,

de uma dorzinha aqui, outra ali,

de cabelos embranquecendo (mas ficam lindos!) ,

de umas ruguinhas que vão se instalando sem que nenhum creme resolva.

Mas é a natureza se mostrando em todo seu esplendor e sabedoria.

maitê

“Estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, só ouço isto.

No táxi, no trânsito, no banco, só me chamam de senhora.

E as amigas falam “estamos envelhecendo”, como quem diz “estamos apodrecendo”.

Não estou achando envelhecer esse horror todo.

Até agora.

Mas a pressão é grande. Então, outro dia, divertidamente, fiz uma analogia.

O queijo Gorgonzola é um queijo que a maioria das pessoas que eu conheço gosta.

Gosta na salada, no pão, com vinho tinto, vinho branco, é um queijo delicioso,

de sabor e aroma peculiares, uma invenção italiana, tem status de iguaria com seu sabor sofisticadíssimo,

incomparável, vende aos quilos nos supermercados do Leblon, é caro e é podre.

É um queijo contaminado por fungos, só fica bom depois que mofa.

É um queijo podre de chique.

Para ficar gostoso tem que estar no ponto certo da deterioração da matéria.

O que me possibilita afirmar que não é pelo fato de estar envelhecendo

ou apodrecendo ou mofando que devo ser desvalorizada.

Saibam: vou envelhecer até o ponto certo, como o Gorgonzola.

Se Deus quiser, morrerei no ponto G da deterioração da matéria.

Estou me tornando uma iguaria.

Com vinho tinto sou deliciosa.

Aos 50 sou uma mulher para paladares sofisticados.

Não sou mais um queijo Minas Frescal,

não sou mais uma Ricota,

não sou um queijo amarelo qualquer para um lanche sem compromisso.

Não sou para qualquer um, nem para qualquer um dou bola,

agora tenho status, sou um queijo Gorgonzola.”

Maitê Proença

A paz dos inquietos

 Já comentei antes que uma das autoras que mais se achegam ao que as mulheres gostariam de dizer, é Danuza Leão.

Esta crônica tão deliciosamente escrita e transposta para o papel , é algo muito real e descreve com maestria a condição dos inquietos.  

Quando li, logo passei para uma pessoa muito querida e que mora comigo,

dizendo na forma que o pessoal daqui do interior fala: “ó nói aqui!”  

Leia e veja se também se enquadra nesta forma de ser.

Que não é fácil nem pra quem é nem pra quem convive rs

inquietos

DanuzaÉ A INQUIETAÇÃO; ou você nasce com ela ou não, e se nasceu, vai passar a vida inteira com uma pressão no peito e outra na alma, querendo entender e não entendendo, trocando de casa, de objetivo, de marido e de analista, sem chegar, nunca, a uma conclusão.

Um inquieto não tem sossego: se é pobre, gostaria de ser rico, se é rico, acha que o dinheiro atrapalha e que talvez fosse mais feliz se morasse numa pequena cabana. Se for inverno, ele se lembra com saudades do verão, mas se está debaixo do mais lindo sol, pensa em como seria bom se estivesse em Gramado no inverno, de botas, tomando um chocolate quente. Não é que ele queira sempre o que não tem; apenas não consegue viver o momento presente – não em paz.

Ou está lembrando-se do passado ou pensando em como vai ser bom quando o futuro chegar. É duro fazer parte da tribo dos inquietos.

Com eles não há risco de monotonia; acordam te sufocando com beijos e abraços ou na mais fria das indiferenças, e o pior: sem saber o porquê. No meio do dia podem telefonar como a mais dócil das criaturas, sem conseguir explicar por que foram tão insuportáveis horas antes.

Nem explicar, nem entender. É dura a vida dos que vivem perto de um inquieto. 
Mesmo quando está tudo bem – o amor perfeito e o trabalho legal, alguma coisa atrapalha: é a tranquilidade.

Como é possível alguém viver em paz e em harmonia com as pessoas e com o mundo? Difícil de responder. 
Difícil, a vida dos inquietos, e ninguém imaginaria o quanto essas pessoas tão vitais – porque vitalidade é o que não lhes falta- sofrem, mas que ninguém confunda sofrimento com infelicidade.

Nada a ver. Para eles nunca há paz; há momentos de intensa e fugaz felicidade, mas paz, nunca. O grande momento dos inquietos é quando eles começam a planejar uma mudança de vida, seja essa mudança quebrar uma parede, mudar de profissão ou de país. 

Eles vivem em eterna tensão, para o bem ou para o mal; só não podem é ficar parados. Os inquietos não se conformam com nada que se pareça com a estabilidade, e por isso os caminhos que escolhem, sejam eles quais forem, são sempre os mais difíceis.

Os inquietos não sabem viver sem uma complicação, e a luta para eles é sempre melhor que a vitória. 
Eles não compram, jamais, uma casa de campo pronta, mas um terreno; levam dois anos para construí-la e mais dois fazendo o jardim, decorando etc. No dia em que ela fica pronta, as flores crescidas, ele sente um grande vazio – que só se resolve quando encontra um comprador.

É que assim eles passam a maior parte da vida, com algumas pausas para refletir por que são assim e como poderiam se aquietar, para serem mais felizes; para encontrar uma certa paz, talvez -só que não conseguem.

Mas um dia eles compreendem que essas pausas foram tempo perdido e teria sido mais simples se tivessem reconhecido, há muito mais tempo, que com eles não há nada a fazer, e que é impossível mudar. 
E é melhor que não saibam nunca: se souberem, terão, de certa maneira, encontrado a tal da paz – o que para eles pode ser fatal.

Danuza Leão

Sou como sou

Esta questão de “sou como sou e não como querem que eu seja” valeu uma boa reprimenda e castigo quando que era menina e ainda estudava interna em colégio de dominicanas.

Não resisti colocar tal frase em um santinho que dei para uma freira que eu gostava muito.

Creio que eu não era das meninas mais quietinhas e passivas e devo ter feito algo naqueles dias que não comportava eu mesma referendar rsrs

Acho que foi por isto o castigo.

Mas esta frase  – que vi pela primeira vez em um caminhão rodando pela estradinha de Poços de Caldas à Guaxupé – ficou sempre gravada em meu subconsciente.

Este quadro que encontrei agora vem complementar o que realmente penso.  

Uma pequena correção.

Eu era quietinha sim, mas no silêncio, doçura e timidez que aparentava, escondia-se sempre um tanto de rebeldia

que fazia questão de se mostrar nem sempre de forma devida e não atrevida.

E que bom que consegui manter pela vida afora o ser assim, sem perder meus sonhos.

sou como sou

Maria Madalena e o perfume precioso

madalena e jesus

A sociedade prossegue dizendo: “Isso está certo, e aquilo está errado”. Chamam a isso de consciência. Ela se fixa, fica implantada em você. Você fica repetindo isso. Isso não tem valor; não é verdadeiro. A coisa real é sua própria consciência. Esta não carrega respostas pre-definidas sobre o que é errado e o que é certo, não. Mas instantaneamente, seja qual for a situação que surja, ela lhe traz a luz – você entende imediatamente o que deve ser feito.

Jesus foi visitar a casa de Maria Madalena. Maria estava profundamente apaixonada. Ela derramou um perfume muito precioso nos pés dele – o frasco inteiro. Era um perfume bem raro que podia ter sido vendido. Judas imediatamente objetou. Ele disse, “Você deve proibir as pessoas de fazer essas coisas sem sentido. O perfume ficará estragado, e há pessoas que são pobres e que nada têm para comer. Podíamos ter distribuído o dinheiro para os pobres.”

Jesus disse: “Não se preocupe com isso. O pobre e o faminto estarão sempre aqui, mas eu terei partido. Você pode servi-los durante toda sua vida, mas eu terei partido; mas eu terei ido. Olhe para o amor, não para o perfume precioso. Veja o amor de Maria, seu coração.”

Com quem você irá concordar? Jesus parece ser muito burguês e Judas parece perfeitamente econômico. Judas está falando a respeito dos pobres, e Jesus apenas diz que partirá logo, assim deixe o coração dela fazer o que ela quiser e não traga aqui sua filosofia.”

Geralmente sua mente irá concordar com Judas. Ele era um homem bem aculturado, sofisticado, um pensador. E ele o traiu – vendendo Jesus por trinta moedas de prata. Mas, quando Jesus foi crucificado, ele começou a sentir-se culpado. É assim que um homem bom funciona – ele começou a se sentir muito culpado, a consciência dele começou a perturbá-lo. Ele cometeu suicídio.

Era um homem bom, tinha uma consciência. Mas ele não tinha consciência. Essa distinção precisa ser profundamente entendida. A personalidade é emprestada, fornecida pela sociedade. A consciência é sua realização. A sociedade ensina a você o que é certo e o que é errado: faça isso e não faça aquilo. Ela lhe dá a moral, o código, as regras do jogo – essa é sua personalidade. Do lado de fora, o policial; dentro, a consciência – é assim que a sociedade controla você.

Judas tinha uma personalidade, mas Jesus era consciente, tinha consciência. Jesus estava mais interessado no amor da mulher, Maria Madalena. Isso era uma coisa tão profunda que coibi-lo seria ferir o amor dela; ela iria afundar dentro de si mesma. Derramar o perfume sobre os pés de Jesus foi apenas um gesto. Por trás disso, ela estava dizendo. “Isso é tudo que tenho – a coisa mais preciosa que possuo. Verter água não seria o bastante; está é muito barata. Eu gostaria de derramar meu coração, eu gostaria de derramar todo meu ser….”

Mas Judas tinha somente sua personalidade: ele olhou para o perfume e disse, “Isso é valioso.” Estava completamente cego para a mulher e seu coração. O perfume é material, o amor é imaterial. Judas não conseguia ver o imaterial. Para isso, você precisa dos olhos da perceptividade, os olhos do coração.

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Quando eu não puder mais

Tem pessoas que a gente tem na vida e que se tornam importantes com a própria chegada e com o passar do tempo.  

E falando em tempo,

quanto mais ele passa mais nos torna conscientes de que o caminho vai diminuindo.

E isto nos dá o direito de nos dirigirmos carinhosamente

a quem dedicamos muito amor e carinho e dedicar essas palavras muito especialmente.

E que fiquem marcadas como uma real dedicatória no livro da vida.

quando eu não puder ir