Com Asas

casulos e borboletasCasulos… Vários deles apareceram colados à parede de minha casa. Lá dentro, eu sabia, se encontravam lagartas que dias antes haviam comido folhas das plantas do meu jardim. Enquanto dormiam, espantosas transformações aconteciam com os seus corpos. As criaturas aladas que antes moravam nelas apenas como sonhos estavam se tornando realidade. Metamorfoses.

Eu os deixei onde estavam, intocados, e vigiei, pois não queria perder o evento mágico. Tive sorte. Pude ver o momento em que um dos casulos se rompeu. Tímida, fraca e desajeitada, sem saber direito o que fazer com a sua nova forma, uma borboleta apareceu. Suas asas se abriram, mostrando delicados desenhos coloridos.

O tempo não me permitiu ficar, para ver tudo. Quando voltei, ela não estava mais lá. Seguira seu novo destino de voar à procura de flores. Se o mundo da lagarta não era maior que a folha que comia, o universo da borboleta era o jardim inteiro. Iria, flutuando ao vento, por espaços com que uma lagarta não podia sonhar.

Pois é: a Mariana também está saindo do casulo. A cada dia que passa vejo suas asas crescerem: novos desenhos, novas cores, voos cada vez mais distantes. Está se transformando em borboleta. Não! BorboLETRA…

Ela aprendeu a falar, e as palavras lhe deram asas. Até se esqueceu das bolinhas. De repente elas ficaram pouco para o muito que cresceu dentro de sua cabeça. Enquanto brincava com as bolinhas ela não era muito diferente de um gatinho que também gosta de brincar com bolinhas. Seu corpo se movia colado às coisas, rente ao chão. Mas ao aprender a usar as palavras ela começou a voar por espaços infinitos, como a borboleta.

 

Palavras, coisas etéreas e fracas, meros sons. No entanto, é delas que o nosso corpo é feito. O corpo e a carne e o sangue metamorfoseados pelas palavras que aí moram. Os poetas sagrados sabiam disto e disseram que o corpo não é feito só de carne e sangue. O corpo e a Palavra que se fez carne: um ser leve que voa por espaços distantes, por vezes mundos que não existem, pelo poder do pensamento.

 

Pensar é voar. Voar com o pensamento é sonhar.

Lembram-se das palavras de Valéry?

“O pensamento é o trabalho que faz viver em nós aquilo que não existe.”

E ele pergunta: “Mas, que somos nós sem o socorro do que não existe?”

 

 É o poder de sonhar que nos torna humanos.
É nisto que a psicanálise acredita. Somos sonhos cobertos de carne.

Por isto que, diferente dos médicos, que apalpam, olham, examinam e medem os sintomas físicos do corpo, ela se dedica a ouvir as palavras. Pois é nelas que moram as coisas que não existem, os sonhos, os pensamentos que nos fazem voar. Sem prestar muita atenção ao rastejar da lagarta, ela procura ver a forma dos movimentos que a borboleta desenha no ar por meio das palavras.

 

Ela sabe que o visível, a carne, é apenas uma fina superfície em cujo interior existe um mundo encantado. Corpo, lagoa… Na superfície, os reflexos do mundo de fora: as árvores, as nuvens, as montanhas… Mas se, libertados do fascínio dos olhos, pararmos para ouvir as palavras que saem de suas profundezas, como bolhas poderá ter vislumbres de criaturas invisíveis, peixes coloridos, catedrais submersas, plantas desconhecidas, histórias de amor e de terror.

A Mariana aprendeu a falar. Ela ganhou o poder de voar pelos mundos que moram nas palavras. Ouve histórias. Aquelas que sempre foram contadas: Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve… O mundo da sua fantasia se liberta dos limites do casulo. Pouco importa que nunca tenham acontecido, as histórias.

 

“Se descreves o mundo tal qual é”, dizia Tolstoi, “não haverá em tuas palavras senão muitas mentiras e nenhuma verdade”.

 

As palavras nos dizem que estamos destinados a voar, a saltar sobre abismos, a visitar mundos inexistentes: “pontes de arco-íris que ligam coisas eternamente separadas”.
Pelo poder da palavra ela pode agora navegar com as nuvens, visitar as estrelas,
entrar no corpo dos animais, fluir com a seiva das plantas, investigar a imaginação da matéria, mergulhar no fundo de rios e de mares, andar por mundos que há muito deixaram de existir, assentar-se dentro de pirâmides e de catedrais góticas,
ouvir corais gregorianos, ver os homens trabalhando e amando, ler as canções que escreveram, aprender das loucuras do poder, passear pelos espaços da literatura, da arte, da filosofia, dos números, lugares onde o seu corpo nunca poderia ir sozinho…

“Corpo espelho do universo! Tudo cabe dentro dele!”

Não é à toa que a Adélia Prado tenha dito que “erótica é a alma”.   

 Enganam-se aqueles que pensam que erótico é o corpo. O corpo só é erótico pelos mundos que moram nele. A erótica não caminha segundo as direções da carne. Ela vive nos interstícios das palavras.

 Não existe amor que resista a um corpo vazio de fantasias. Um corpo vazio de fantasias é um instrumento mudo, do qual não sai melodia alguma. Por isto que Nietzsche disse que só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar:

 

“Continuarei a ter prazer em conversar com esta pessoa, daqui a 30 anos?”

flores

O corpo de uma criança é um espaço infinito onde cabem todos os universos. Quanto mais ricos forem estes universos, maiores serão os voos da borboleta, maior será o fascínio, maior será o número de melodias que saberá tocar, maior será a possibilidade de amar, maior será a felicidade.

Por vezes, entretanto, acontece uma metamorfose ao contrário: as borboletas voltam ao casulo e se transformam em lagartas. Porque voar é fascinante, mas perigoso.

 

É preciso que não se tenha medo de flutuar sobre o vazio com asas frágeis. É mais seguro viver agarrado à folha que se come.

 

E eu me pergunto sobre o que aconteceu conosco. Pois um dia fomos como a Mariana, borboletas aladas, em busca de espaços sem limites. Talvez, por medo, tenhamos abandonado as asas.

 

Talvez, por medo, já não sejamos capazes de voar e sonhar. Gordas lagartas, que não têm coragem de se desprender das seguras folhas onde rastejam…

 

 

Rubem Alves – A Alegria de Ensinar

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