Comer pastel na feira é mais eficaz do que um abaixo-assinado

 Uma das melhores crônicas/comentários que li nos últimos tempos.

Vale a pena ler.

É cômico e ao mesmo tempo uma séria reflexão dos tempos que vivemos.

Parabenizei muito o autor da façanha.

Muito bem pensado e colocado.

Amo essas cabeças jovens que falam com tanto espírito e galhardia.

pastel

 

 

No colégio, volta e meia aprontávamos abaixo-assinados fazendo as mais várias solicitações, sempre com forte adesão de todos os colegas de turma. De cabeça, lembro-me dos textos pedindo o fim da obrigatoriedade do uniforme escolar, a pena de morte para a professora de gramática e a antecipação do feriado natalino para setembro. Infelizmente, a direção nunca atendeu a expressa vontade do corpo de estudantes – apesar da indiscutível justeza das reivindicações. Vendo que essa forma de manifestação não reverberava nas instâncias superiores, passamos a praticar sistematicamente outras formas de protesto cívico, como o enforcamento de aulas para comer pastel na feira. Nossa revolta passou então a ser notada, gerando, como consequência, o destacamento de guardinhas, devidamente equipados com motocicletas, para perseguir os alunos indisciplinados.

Desde então, assimilei a informação de que comer pastel na feira gera resultados mais eficazes do que redigir um abaixo-assinado. Com o tempo, as razões me pareciam óbvias: ninguém leva a sério um papel invariavelmente engordurado, amassado, cheio de rasuras, com uma lista de signatários na qual quase sempre estão presentes nomes de notórios falecidos – Raul Seixas é o meritoso campeão, aparecendo em 99% dos abaixo-assinados de todo o Brasil.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que abaixo-assinados são, sim, muito importantes neste nosso país, determinando a abertura ou a não abertura de partidos políticos. Mais: há peritos responsáveis em analisar a validade das assinaturas. Mais de 500 mil pessoas tiveram a pachorra de escrever nome completo, fizeram o esforço de lembrar-se do número de RG – apenas para tornar possível a existência dos benvindos Pros e Solidariedade. Até aí, nenhuma surpresa: de minha experiência escolar, já havia aprendido que todos estão sempre dispostos a assinar qualquer abaixo-assinado, porque é divertido fazê-lo. A Rede, da Marina Silva, apenas não teve competência pra fazer circular todas as folhas rotas de papel: ninguém recusa um abaixo-assinado, ninguém recusa uma cartela de bingo. A novidade é a ampla divulgação da validade desse instrumento.

Aproveitando o embalo, e o fato de que ninguém presta atenção no documento que está subscrevendo, deveríamos fazer valer medidas que, caso estudadas com mais rigor, haveriam de ser rechaçadas, mas que podem até acabar se tornando legais, no calor do momento. A antecipação do feriado natalino para setembro devo considerar como um arroubo da juventude, mas tenho já aqui outras ideias, e estou disposto a aderir entusiasticamente a propostas que se revelarem interessantes. Abaixo, as que me ocorrem de imediato.

  • Abaixo-assinado pela proibição da manufatura de lingerie na cor bege – sendo consideradas “bege” as roupas de baixo nos chamados tons “chocolate”, “nude”, ou quaisquer outros nomes com que a indústria tente abrandar a vergonha de usar lingerie bege.

  • Abaixo-assinado pela normatização do truco – em cada estado há uma regra diferente, é uma balbúrdia, ninguém se entende, são brigas que poderiam ser evitadas em se instituindo um pouco de ordem.

  • Abaixo-assinado pela criação de uma campanha de prevenção contra as dinâmicas de grupo – o governo também deveria financiar panfletos explicativos com dicas demonstrando como não ser proativo, como sabotar o espírito de liderança e como repudiar o trabalho em equipe.

  • Abaixo-assinado pela conscientização sobre o real significado do creme chantilly – milhares de pessoas são privadas de experimentar esta maravilha porque provaram aquela espuma de barbear com açúcar vendida em tubos de spray, detestaram, e assim acham que não gostam de chantilly – uma impossibilidade física.

  • Abaixo-assinado pela inclusão da disciplina de manutenção automotiva no currículo escolar – sempre aparecem alguns bocudos para falar com naturalidade de velas, pastilhas de freio, cárteres, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Não sei onde aprenderam tudo isso, na escola não foi. Mas acho que faço parte de uma maioria silenciosa: estudar manutenção automotiva é bem mais útil do que decorar o processo de reprodução dos anelídeos, convenhamos, e nos pouparia da vergonha de ter de ligar para o seguro a cada vez que um pneu é furado.

Postado em 02/10/13 por André Simões – Site Livros e Afins

http://livroseafins.com/comer-pastel-na-feira-e-mais-eficaz-que-um-abaixo-assinado/

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