Sobre o Autor

 

Passei anos e anos de minha vida me preocupando com tudo e todos. Tinha uma família – e não era tão pequena – pra sustentar e dar conta do dia a dia. Complicava o fato de ter sido criada com conforto, abundância de tudo, preparada para fazer um casamento com um “lorde” que me supriria de todas as necessidades e mais ainda. Estudava piano pois seria uma grande pianista como era o desejo de minha mãe. Nunca aprendi a fazer um arroz que fosse. E então….. vem a vida invertendo todas as respostas a qualquer pergunta que se faça. Daí fui à luta. Se bem que sempre gostei de trabalhar (fora de casa!) e comecei muito cedo mesmo a contragosto de meu pai que ainda era do tempo que filhA trabalhar fora era vergonhoso. Como sempre fui um pouco rebelde e contra regras e disciplina, mesmo não sendo uma anarquista, consegui me realizar muito profissionalmente. Mas meus dias eram repletos e minhas horas sempre gastas com o trabalho principalmente. Lazer era algo que não me chamava muito a atenção. Lamento hoje pelas minhas filhas que acabavam por me ter muito pouco em casa e ainda hoje reclamam disso.  Agradeço de coração o empenho e boa vontade de minha mãe que cumpria o papel que deveria ser também e muito meu. Houve falhas nesta forma? Claro! Mas, como se diz, “é o que tinha pro dia”. Tiveram todos boa vida, férias gostosas, as tais roupas de marca que adolescentes adoram, frequentaram ótimos restaurantes, se instalaram em deliciosos hotéis, assistência médica de primeira linha, os melhores colégios. Enfim, tudo o que o material pode produzir e proporcionar. Amor? Sempre tudo foi feito com todo o carinho e amor do mundo. No meu conceito, proporcionar o de melhor era também uma grande forma de AMOR. E o tempo passou. Não me casei com o lorde, não fui pianista nem média, aprendi a cozinhar e muito bem (tive até rotisserie e restaurante). Fui excelente profissional como administradora gerencial, preparando perfeitos bastidores  para as “estrelas” que tive o prazer de conviver e trabalhar. E, como é inevitável, o tempo passou e passou. Até me ver hoje como uma senhora – idosa??!! – tranquila, ainda cheia de amor, em vésperas de ser bisavó (o que estou esperando acho que mais que o casal). Tive a infelicidade de ficar doente no ano passado, com um câncer no palato mole que me deixou muito triste e assustada. Mas consegui vencê-lo e o tumorzinho cicatrizou (ô glória!). Luto hoje com as sequelas da radioterapia que é um tratamento super agressivo e me perturba um bocado. Mas estou bem. Modifiquei minha alimentação por força das circunstâncias, perdi 35 quilos devido a isto (foi ótimo, pois fiquei com o corpo de solteira) e me sinto super cheia de vigor e energia.  Resumindo tudo isto, o texto que achei no facebook e que abaixo transcrevo, diz muito ou tudo o que realmente penso e sinto nesses dias que ainda são meus, tendo consciência de que tenho muito mais passado do que futuro (parodiando Rubem Alves).

E tudo fica tão simples…

 

 

de repente

 

Da mesma forma me encontro muito nesta matéria que Marina Colasanti tão bem expôs:

“Eu sei, mas não devia
Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.”

(Marina Colasanti)

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11 Comentários

11 pensamentos sobre “Sobre o Autor

  1. Acostuma-se a tudo erroneamente…infelizmente.Somos acostumáveis demais neste mundo de Deus!
    Nos deixamos levar pela vida…ao invés de ser o contrário…Por que será?
    Acho que por comodismo …talvez….
    Metade dessa lista toda já não faz parte de mim…
    Sou nova… rs… acabo com ela…loguinho!!!

    Beijos encorajadores!!!

    voltarei!

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