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Corujas que tanto gosto

coruja branca

Apesar de sua popularidade, apenas recentemente cientistas começaram a entender melhor o que faz das corujas serem tão diferentes de outras aves. Eu sempre tive uma admiração e posso dizer mesmo uma atração por esse animalzinho tão encantador quanto diferente e com tantas crenças sobre ele. Uns dizem que é um bicho de mau agouro. Outros dizem que trás azar se sentar sobre seu telhado. E muitas outras coisas são ditas. Eu, especialmente, acho um bicho bonito em suas diversas formas, cores, tipos, creio que raças, pois diferem bastante uns dos outros. E, pelo que sei, é o símbolo da sabedoria. Durante anos colecionei corujas. Tinha uma prateleira alta, do chão até quase o teto, cheia delas. De todas as cores, feitas de materiais os mais diversos, alguns simples outros exóticos. Amigos traziam de suas viagens peças que sabiam iam me fazer vibrar. Hoje encontrei esta matéria sobre as corujas e vou deixar aqui registrada até como informação mais objetiva sobre a ave que tanto me agrada e atrai.

coruja de luz

The New York Times | 16/03/2013

Estudos estão desvendando a complexidade destas aves populares

No dia seguinte a uma noite gelada e estrelada que passei com David Johnson, do Projeto Mundial de Corujas, nos bosques de Alexandria, Virginia, ouvindo os gritos estridentes e chorosos de corujas-barradas selvagens que permaneceram fora de vista, fiz uma parada no Zoológico Nacional por volta do pôr do sol para observar as aves que eu tinha escutado.

As duas corujas-barradas ( Strix varia ) ainda estavam despertando e pareciam maiores e mais majestosas do que eu esperava, com camadas densas de plumagem café com leite e o pescoço envolto por 43 centímetros de penas pomposas, elisabetanas. Como qualquer bom membro da realeza, elas me ignoraram.

Isso, porém, apenas até eu pegar meu telefone e usar o aplicativo Birdcall para tocar o canto da coruja-barrada. Os olhos lânguidos da fêmea se abriram. A cabeça do macho girou em 180 dos 270 graus que a rotação da cabeça de uma coruja pode alcançar.

Com o olhar distinto e voltado para frente que pode fazer as corujas parecerem tanto um ser humano quanto uma ave, a dupla barrada olhou para mim. Toquei novamente o canto. O macho ficou entediado. Eu estava prestes a guardar o telefone quando de repente a fêmea – a maior das duas corujas, algo comum entre as aves de rapina – lançou o corpo para frente, levantou suas asas pesadas e magníficas e respondeu a plenos pulmões ao canto gravado que eu havia acabado de tocar.

Após uma breve pausa, ela emitiu a sequência de oito notas mais uma vez, momento em que um impressionado frequentador do zoológico parou para aplaudir.

No imaginário ocidental, a coruja certamente disputa com o pinguim o título de ave favorita. “Todo mundo adora as corujas”, disse David J. Bohaska, paleobiólogo do Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian, que descobriu um dos mais antigos fósseis de coruja. “Mesmo os mastozoólogos adoram corujas.”

As corujas são uma figura-chave dos livros infantis e um elemento importante da cultura kitsch, podendo cortejar gatinhas em barcos – como em “A Coruja e a Gatinha”, de Edward Lear – e entregar a correspondência da turma de Harry Potter, arqueando a sobrancelha para pedir biscoitinhos em retribuição. Apesar de toda essa familiaridade aparente, os cientistas começaram a entender essas aves detalhadamente apenas recentemente, assim como a decifrar as sutilezas de comportamento, biológicas e de destreza sensorial que as distinguem de todas as outras tribos de aves.
Os pesquisadores descobriram, por exemplo, que os filhotes de corujas-das-torres podem ser impressionantemente generosos uns com os outros, cedendo regularmente partes de seu alimento para seus irmãos menores e mais famintos – uma mostra de altruísmo que acreditamos ser rara entre os animais não humanos, e que muitos caçulas humanos podem invejar.

Os cientistas também descobriram que as corujas expressam suas necessidades e desejos entre si por meio de uma complexa e regrada série de cantos, trinados, latidos ecoruja lendo pios, uma língua que os investigadores estão agora tentando decifrar.

“Elas falam a noite inteira e fazem um barulho enorme”, disse Alexandre Roulin, da Universidade de Lausanne, que recentemente publicou um estudo sobre o altruísmo entre corujas no periódico Animal Behaviour com sua colega Charlene A. Ruppli e com Arnaud da Silva, da Universidade da Borgonha. “Nós nunca colocaríamos caixas de nidificação na frente do quarto de um fazendeiro, pois ele não conseguiria dormir.”

Outros pesquisadores estão monitorando a vida de algumas das mais raras e inusitadas corujas que existem, como a ameaçada coruja-peixe de Blakiston, da Eurásia. Com quase um metro, pesando até 4,5 quilos e com uma envergadura de 1,80 m, a Blakiston é a maior coruja do mundo, uma ave de tamanho tão pouco comum que muitas vezes é confundida com outras coisas, de acordo com Jonathan Slaght, do programa da Sociedade de Preservação da Vida Selvagem da Rússia. Em uma árvore, ela poderia facilmente parecer um urso; em uma ponte, poderia ser confundida com um homem, talvez com Ernest Hemingway.

Esse poderoso predador pode capturar um salmão adulto duas ou três vezes mais pesado que ele próprio em um rio, às vezes se agarrando a uma raiz de árvore com uma das garras para ajudar a arrastá-lo.The New York Times

O cientista Jonathan Slaght teve nos braços uma coruja de Blakiston fêmea, a maior espécie de coruja do mundo

A ferocidade é essencial para uma ave cujo habitat gelado e irregular se estende do nordeste da China, passando pelo Extremo Oriente russo, até o Círculo Ártico. Ela procria e faz ninhos no auge do inverno, no topo de um álamo ou olmo gigante, ao ar livre, em temperaturas de 30 graus centígrados abaixo de zero. Sergei Surmach, colega de Slaght, filmou uma fêmea acomodada em seu ninho durante uma nevasca. “No fim das contas, só deu para ver a cauda um pouco saliente”, disse Slaght.

Engenheiros aeronáuticos estão estudando as corujas em busca de ideias para aperfeiçoar projetos de asas. Muitas espécies de coruja são conhecidas por sua capacidade de voar quase que totalmente em silêncio, sem os ruídos provocados pelo bater das asas e pelos voos rasantes que podem chamar a atenção das presas quanto à sua aproximação.

coruja gênioOs pesquisadores atribuem esse voo silencioso a várias características. A estrutura da asa da coruja é ampla e curvada – a forma ideal para deslizar lentamente – e é coberta por uma plumagem aveludada que ajuda a absorver o som. Além disso, há penas na extremidade das asas que são serrilhadas para dispersar e suavizar efetivamente a turbulência do ar, assim como um pente que desembaraça nós. Em uma reunião da Sociedade Americana de Física realizada no ano passado, pesquisadores da Universidade de Cambridge propuseram que fazer perfurações bem posicionadas em uma asa de avião pode ter um efeito suavizante semelhante sobre a turbulência, proporcionando voos mais silenciosos e eficientes.

As corujas têm pelo menos 60 milhões de anos e são encontradas em quase todos os tipos de habitat: nos trópicos, na tundra, no deserto e até no Central Park. Sabemos da existência de aproximadamente 229 espécies, e a lista continua crescendo: no ano passado, duas novas espécies de coruja-gavião foram descobertas nas Filipinas e, neste mês, os pesquisadores relataram uma nova espécie da ilha de Lombok, na Indonésia, que se parece com uma corujinha.

As corujas são as aves soberanas da noite, embora algumas cacem ao entardecer e amanhecer e até mesmo durante o dia. E elas caçam incansavelmente. Estima-se que um grupo ou “parlamento” de 10 famílias de coruja que vivem em um celeiro na Flórida Central devoram cerca de 25 mil ratos do mato por ano dos campos de cana-de-açúcar das proximidades.

Por muito tempo se acreditou que as corujas eram estreitamente relacionadas a aves de rapina como os gaviões e as águias, com os quais às vezes se assemelham – como é o caso da coruja-gavião e do bufo-real. Mas as semelhanças entre os bicos ou as garras são resultado da convergência evolutiva de equipamentos ideais para comer carne, e análises genéticas recentes vinculam as corujas a outras aves de hábitos noturnos, como os noitibós.

Através do Projeto Mundial de Corujas, Johnson está trabalhando com pesquisadores de 65 países para compilar uma vasta base de dados de todas as corujas do mundo, com descrições, história natural, genética, vocalizações, estimativas populacionais aproximadas, mitos e lendas sobre as corujas.

Os ocidentais adoram as corujas, disse ele, uma tradição que remonta pelo menos aos gregos antigos e à associação das corujas com a sábia deusa Athena e seus “olhos brilhantes” e cinzas. Em alguns países, porém, as corujas são vistas como maus presságios, arautos da morte – talvez, sugeriu Johnson, porque elas costumam fazer ninhos em cemitérios, onde as árvores crescem sem perturbações e as cavidades de nidificação são grandes e confortáveis.

Ah, se as corujas pudessem nos emprestar seus ouvidos. Espécies como a coruja-das-torres, a coruja-barrada, a corujinha e o corujão tem alguns dos sistemas auditivos mais aguçados de que se tem notícia, capazes de escutar uma presa em potencial se mexendo bem profundamente sob camadas de folhas, neve ou grama, identificar as espécies de roedores e até mesmo avaliar se eles estão corpulentos o suficiente ou em estado de gestação, tendo com base apenas o som.

Os cientistas também atribuem isso a uma série de características. Tim Birkhead, da Universidade de Sheffield, afirma em seu novo livro, “Bird Sense” (“Percepção de ave”, em tradução livre), que a cóclea das corujas é “enorme” e repleta de cílios sensoriais. A coruja-das-torres, por exemplo, tem três vezes o número de células ciliadas que esperaríamos encontrar dado o seu tamanho corporal. Os ouvidos do animal também são excepcionalmente grandes e assimetricamente posicionados em ambos os lados do crânio, de modo a ajudar melhor a localizar origem de um som; o pescoço supergiratório aumenta ainda mais a capacidade de captar o ambiente sonoro.

Além disso, há o famoso rosto achatado da coruja, também chamado de disco facial – que tem forma de torta em algumas espécies e forma de coração na coruja-das-torres, lembrando os personagens do teatro Kabuki. O disco facial serve como uma espécie de antena de satélite, tendo como propósito captar ondas sonoras que são então direcionadas às orelhas da coruja por penas rígidas e especializadas presentes na circunferência do disco.

Mesmo os olhos da coruja, virados para a frente, podem ter a ver com a audição tanto quanto com a visão. Graham Martin, da Universidade de Birmingham, propõe que, já que grande parte da lateral do crânio da coruja é tomada pelos seus enormes ouvidos, o único lugar onde é possível posicionar seus olhos é mesmo o meio da face.

Estamos de olho em você, Strix varia. Canta de novo, por favor?

(Por Natalie Angier)

“ISTAMBUL, MINAS GERAIS”

Postado em 28 de fevereiro de 2009 – Blog Estrela Binaria (Antonio Carlos Augusto Gama)

Para a Sonia (com pedido de perdão pelas caneladas)

“Eu gostaria muito de escrever assim toda a história da minha vida — como se minha vida tivesse acontecido a uma outra pessoa, como se fosse um sonho em que eu sentisse a minha voz sumir e a minha vontade sucumbir ao encantamento. Por mais que a considere linda, acho a linguagem da epopéia inconvincente, pois não consigo aceitar que os mitos que contamos acerca do começo de nossas vidas nos preparem para as segundas vidas mais autênticas e brilhantes a que precisamos dar início assim que despertamos. Porque — pelo menos para pessoas como eu — essa segunda vida é nada menos do que o livro em suas mãos. Por isso, preste muita atenção, caro leitor. Vou lhe falar com franqueza, e em troca quero pedir a sua compaixão” (Istambul: memória e cidade, Orhan Pamuk).

“Istambul sempre me atraiu.

De início pela simples sonoridade da palavra, depois pelo que fui sabendo a respeito dela nas aulas de História (antiga Constantinopla, sede do Império Bizantino, cuja queda marca o fim da Idade Média etc etc) e, sobretudo, ao ler novelas policiais e assistir a filmes idem, em que a cidade era palco de mil aventuras, nas quais se envolviam espiões, assassinos, detetives, mulheres enigmáticas e fatais. Personagens, ruas, becos, casas e edifícios, o encontro do Oriente com o Ocidente, o Bósforo, com suas águas profundas e negras, singradas por navios misteriosos e suspeitos.

Tão logo me deparei com o livro Istambul: memória e cidade (e sua melancólica e linda capa) do escritor Orhan Pamuk, Nobel de literatura em 2006, que nasceu e passou a maior parte de sua vida lá, tratei de comprá-lo e nele mergulhei. Aliás, Orhan Pamuk se exilou nos EUA em razão das ameaças que passou a sofrer depois que teve a coragem de falar sobre o episódio maldito e proibido para os turcos, que é o massacre de armênios.

Costumo ler vários livros simultaneamente, saltando de um para outro, sem me confundir ou perder a atmosfera de cada um (faço o mesmo com os canais da TV, e minha mulher briga comigo, dizendo que isso é coisa de maluco). Por isso, embora já tenha terminado a leitura há algum tempo, só agora me ocorreu fazer este registro e recomendar o livro.

Tenho quase a mesma idade de Orhan Pamuk, e suas reminiscências afetivas sobre o Edifício Pamuk, cujos andares abrigava toda a sua família (rica, mas em processo de decadência), suas visitas ao apartamento da avó, com seus móveis antigos, seus tapetes, suas salas fechadas, as fotografias espalhadas por todos os cantos, os vasos e enfeites intocáveis, a solidão e a imaginação do menino Orhan, tentando compreender o mundo que o cercava, me provocaram um retorno proustiano à casa dos meus avós maternos, onde passei parte da primeira infância.

                         Istambul, Turquia, e Guaxupé, sul de Minas, Brasil. Lugares tão distantes, meninos tão parecidos, circunstâncias e sentimentos tão próximos!

                         Essa busca do tempo perdido reavivou-se hoje com outra madeleine, que foi uma troca de e-mails com uma sobrinha da minha avó materna, a quem sempre considerei como prima em primeiro grau, já que também somos quase da mesma idade. Apesar disso, convivemos pouco, pois sempre moramos em cidades diferentes e só nos encontrávamos esporadicamente. 

                        Retomamos o contato pela internet e ela, tendo visitado este blog, deixou nele um comentário carinhoso e me enviou e-mail cheio de recordações, entre as quais uma que me faz corar de vergonha (e de que juro não me lembrar): diz ela que vivia com as canelas roxas pelos pontapés que eu lhe dava, quando éramos pequenos.

                         Logo eu, que me achava um gentil infante!

Muito dessa impressão (que parece agora ser falsa) de menino bem comportado e circunspecto, que também me unia ao pequeno Orhan de Istambul, decorre de uma mania da minha avó materna, Dona Gessy, que adorava me empetecar com uns terninhos de linho engomado (pobre de mim), com monogramas por ela mesma bordados com todo o capricho no bolso, e me levar consigo nas visitas às amigas.

As madames ficavam a conversar, tomar chá, comer bolinhos e jogar baralho por longas horas, enquanto eu ─ para orgulho da vovó ─ mantinha um comportamento impecável, de um verdadeiro rapazinho e cavalheiro, sem tocar em nada que pudesse ser quebrado. Mergulhava então em mim mesmo, e minha imaginação campeava livre, inventando coisas e brincadeiras íntimas, para passar o tempo e fugir da chatice.

De vez em quando, ou ao nos despedirmos para ir embora, algumas das madames me derramavam elogios, me apertavam as bochechas ou me enchiam de beijos molhados e piniquentos, que me deixavam a cara lambuzada e marcada de batom.

                         Talvez depois descontasse tudo isso nas canelas da pobre prima.”

Sonia Kahawach14/04/09 at 16:02 – Resposta

Depois de um pedido de desculpas assim e uma homenagem dessas, não tem canela que possa se manter dolorida. Fico sinceramente lisonjeada e creio que no meu e-mail coloquei muito do carinho que lhe mantenho e que demonstra que os pontapés fazem parte de um passado muuuuito passado. Bjs. 

 Eu tenho que deixar aqui registrada a troca de e-mail que mantenho com um primo muito querido, intelectual, grande escritor, mente brilhante, por quem tenho enorme admiração e carinho, dono do blog Estrela Binaria, visita obrigatória para quem curte poesias/crônicas/contos/comentários sobre músicas, escritores e outras criações. E ainda sempre me brinda com seus comentários aqui.

Como minha intenção básica com este meu blog era registrar tudo o que possa ser interessante e importante pra mim, não poderia me furtar a transcrever esse post que ele publicou em 2009 e hoje me relembrou porque lhe enviei matéria sobre Istambul – que ele tanto admira.

Ele é tão especial que conseguiu caminhar, com maestria em seu texto, da longínqua Turquia até Guaxupé/Sul de Minas.

Passei lindas e gostosas férias nessa cidadezinha localizada próxima de Poços de Caldas, onde fui criada. Ele recordou no texto um período quando tínhamos eu uns 8 a 9 anos e ele era um garotinho com uns seis ou 7 anos, pois não me lembro bem qual a diferença que temos. Apesar das caneladas (rsrs), brincamos muito naquela época quando ainda se tinha uma real infância de brincadeiras de rua, de imitação de faroeste e tivemos dias muito divertidos e tão bons que ficaram na lembrança para sempre. 

Plante seu jardim

 

 

“Transforme a confusão num belo jardim: essa é sua tarefa!

Plante flores cheirosas (virtudes) para que as pessoas possam apreciá-las quando passarem pelo seu jardim (vida): isso é sabedoria!

Deixe que o perfume do seu jardim dê prazer a todos ao permitir que a doçura chegue em seus corações e a admiração em suas mentes.

Remova as ervas daninhas (negatividades) – visíveis ou escondidas – e deixe que seu jardim se torne um pomar de generosidade.”