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Convite de Deus

Alguns escritores me fazem soltar a imaginação mais do que já sou propensa.

E me proporcionam lindos voos aceitando o convite de Deus. 

Obrigada, Edson Marques!

Deus me convidou

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Sou um dos 999.999 Poetas do País

 

Affonso Romano de Sant Anna

Sou um dos 999.999 poetas do país
que escrevem enquanto caminhões descem pesados de cereais
e celulose
ministros acertam o frete dos pinheiros
carreados em navios alimentados com o óleo
que o mais pobre pagará.

(- Estes são dados sociais de que não quero falar,

embora tenha aprendido em manuais

que o escritor deve tomar o seu lugar na História e o seu cotidiano alterar.)

Sou um dos 999.999 poetas do país
com mãe de olhos verdes e pai amulatado
ela – a força de Áries na azáfama da casa
a decisão do imigrante que veio se plantar
ele – capitão de milícias tocando flauta em meio
às balas
lendo salmos em Esperanto sobre a mesa
domingueira.

(- Estes são sinais particulares
que não quero remarcar, embora
tenha aprendido em manuais
que o que distingue a escrita do homem
são seus traços pessoais que ninguém pode
imitar.)

Sendo um dos 999.999 poetas do país
desses sou um dos 888.888
que tiveram Mário, Bandeira, Drummond,
Murilo, Cecília, Jorge e Vinícius como mestres
e pelas noites interioranas abriam suas obras
lendo e reescrevendo os versos deles nos meus versos
com deslumbrada afeição.

Desses sou um dos 777.777 poetas
que se ampliaram ao descobrir Neruda, Pessoa,
Petrarca, Eliot, Rilke, Whitman, Ronsard e Villon
em tradução ou não
e sem qualquer orientação iam curtindo
um bando de poetas menores/piores
que para mim foram maiores
pois me alimentavam com a in-possível poesia
e a derramada emoção.

Desses sou um dos 666.666 poetas
que fundando revistinhas e grupelhos aspiravam
(miudamente)
à glória erótica & literária
e misturando madrugadas, festas, citações, sonhos
de escritor maldito e o mito das gerações
depois da espreita aos suplementos
batem à porta do poeta nacional para entregar
poemas
(com a alma na mão)
esperando louvor e afeição.

Desses sou um dos 555.555
que um dia foram o melhor poeta de sua cidade
o melhor poeta de seu estado
dos melhores poetas jovens do país
e quando já se iam laureando aqui e ali em plena arcádia surpreenderam-se nauseados
e cobrindo-se de cinza retiraram-se para o deserto
a refazer a letra do silêncio
e o som da solidão.

Desses sou um dos 444.444 poetas
que depois da torrente de versos adolescentes e noturnos
se estuporaram per/vertidos nas vanguardas
e por mais de 20 anos não falamos de outra coisa
senão da morte do verso e da palavra e da vida do sinal
acreditando que a poesia tendia para o visual
e que no séc. XXI etc. e etc. e tal.

Desses sou um dos 333.333 poetas
que depois de tanto rigor, ardor, odor, horror
partiram para a impureza (consciente) das formas
podendo ou não rimar em ar e ão
procurando o avesso do aprendido
o contrário do ensinado
interessado não apenas em calar, mas em falar
não apenas em pensar, mas em sentir
não apenas em ver, mas contemplar
fugindo do falso novo como o diabo da cruz
porque nada há de mais pobre que o novo ovo de ouro
gerado por falsas galinhas prata.

Desses sou um dos 222.222 poetas
que penosamente descobriram que uma coisa
é fazer um verso, um poema ou mais
e receber os elogios médio-medianos dos amigos
e outra, bem outra, é ser poeta
e construir o projeto de uma obra
em que vida & texto se articulem
letra & sangue se misturem
espaço & tempo se revelem
e que nesta matéria revém o dito bíblico
– muitos os chamados, poucos os escolhidos.

Desses sou um dos 111.111 professores
universitários ou não
que antes de tudo eram poetas-patetas-estetas-profetas
e que depois de ver e viver da obra alheia estupefatos
descobre que só poderiam/deveriam
sobreviver com a própria que escondem e renegam
por pudor recalque e medo.

Sou um dos 999 poetas do país
que sub/traídos dos 999.999
serão sempre 999 (anônimos) poetas
expulsos sistematicamente da República por Platão
que um dia pensaram em mudar a História com
dois versos pena & espada (o que deu certo ao tempo de Camões)
e que escrevendo páginas e páginas não mudaram nada
senão de tinta e de endereço.
Mas foi dessa inspeção ao nada que aprenderam
que na poesia o nada se perde
o nada se cria e o nada se transforma.

 Affonso Romano de Sant’Anna  – é um caso raro de artista e intelectual que une a palavra à ação. Com uma produção diversificada e consistente, pensa o Brasil e a cultura do seu tempo, e se destaca como teórico, como poeta, como cronista, como professor, como administrador cultural e como jornalista.Com mais de 40 livros publicados, professor em diversas universidades brasileiras – UFMG, PUC/RJ, URFJ, UFF, no exterior lecionou nas universidades da California (UCLA), Koln (Alemanha), Aix-en-Provence (França).

 

Máximas de Stanislaw Ponte Preta

Stanislaw Ponte Preta – pseudônimo de Sergio Marcos Rangel Porto (1923 – 1968). Eu acho que criadores do nível dele não deviam se ir tão cedo. Foi Patrono do Jornal O Pasquim; irreverente no estilo teve inúmeros livros publicados, todos com sucesso e até hoje fontes de leitura. Criou alguns personagens inesquecíveis e ficou definitivamente conhecido, com o famoso FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assolam o País que rendeu 2 livros publicados em 66 e 67.

“As três coisas mais perigosas que eu conheço são: limpar arma de fogo, mulher do vizinho e croquete de botequim.

Há uma grande diferença entre o católico e o carola. Católico é o que ama a Deus, carola é o que teme.

Quem arrisca não petisca, quem não chora não mama, quem não morre não vê Deus.

O fato de um homem ser muito preparado não implica em que ele seja bom político; creolina também é preparada e limpa latrina.

O velho que recorda comovido, creditando ternura a pessoas, fatos e coisas do passado, não percebe que o que sente é saudade de si mesmo.

Certos produtores de televisão dão tanto em cima das artistas que deviam receber ordenados de reprodutores.

Quando se chega a certa idade as dentaduras postiças começam a sorrir para a gente.

Tinha um complexo de inferioridade tão grande que quando olhava no espelho não via ninguém.

Sempre ouvia dizer que o homem totalmente realizado é aquele que tem um filho, planta uma árvore e escreve um livro. Ele tinha um filho; um dia plantou uma árvore. O filho trepou na árvore, caiu e morreu. Não lhe restava outra alternativa: escreveu um livro sobre o ocorrido.

Dono de cartório de protesto é uma espécie de cafetão da desgraça alheia.

O marido enganado é um homem que se engana a respeito da mulher que o engana.

O único programa de televisão que depois que começa a gente não sabe o que vai acontecer é transmissão de jogo de futebol.

“– Seu Padre, eu trouxe aqui este leitãozinho para Santo Antônio”. “– Pode deixar que eu entrego”.

Às vezes eu tenho a impressão que meu anjo da guarda está gozando licença-prêmio.

O colibri é o helicóptero de Deus.

A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento.

Pelo jeito que a coisa vai, em breve o terceiro sexo estará em segundo.

Há oradores que, terminados os seus discursos, deviam ser presos por terem roubado o tempo da gente.

Se Diabo entendesse de mulher não tinha nem rabo nem chifre.

Em mulher não se bate nem com uma flor, mesmo porque não adianta nada.

Era uma empregada tão perfeita que a patroa acabou concordando em cozinhar para ela.

As coisas que mais contribuem para avacalhar a dignidade de um homem são: bofetão de mulher, tombo de bunda no chão e dor-de-barriga.

Homem que desmunheca e mulher que pisa duro não enganam nem no escuro.

Não bote a mão no fogo por uma mulher porque você pode ficar com o apelido de maneta.

Crer em Deus é fácil. Nos padres que é difícil.

Quem não deve não teme… uma ova. Quem não teme não paga, isto sim.

Se as paredes falassem… todo mundo ia dormir lá fora.

Cachorro do mato não pega vício de poste.

Mosquito sabido morde primeiro e faz zunido depois.

Em armazém de português, mulata sempre tem vez.”

Máximas do Barão de Itararé

Barão de Itararé (Apparício Torelli, 1895-1971) foi um grande escritor e humorista,  com diversos livros publicados, além de famoso jornalista com participação em jornais de destaque. Conseguia ser objetivo e ao mesmo tempo sarcástico em suas famosas frases que são citadas constantemente. Delicie-se com algumas.

“De onde menos se espera daí é que não sai nada.

Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.

Quem empresta adeus…

Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.

Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.

Quando pobre come frango, um dos dois está doente.

Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.

Cleptomaníaco: ladrão rico. Gatuno: cleptomaníaco pobre.

Quem só fala dos grandes, pequeno fica.

Viúva rica, com um olho chora e com o outro se explica.

Depois do governo ge-gê, o Brasil terá um governo ga-gá. ( Ge-gê: apelido de Getulio Vargas. Ga-gá: referia-se às duas primeiras letras no sobrenome do novo presidente, Eurico Gaspar Dutra).

Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga.

Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

Os juros são o perfume do capital.

Orçamento é uma conta que se faz para saber como devemos aplicar o dinheiro que já gastamos.

Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.

O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.

A gramática é o inspetor de veículos dos pronomes.

Cobra é um animal careca com ondulação permanente.

Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.

Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.

Há seguramente um prazer em ser louco que só os loucos conhecem.

É mais fácil sustentar dez filhos que um vício.

A esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados.

Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que um dia ficará chato como o pai.

O advogado, segundo Brougham, é um cavalheiro que põe os nossos bens a salvo dos nossos inimigos e os guarda para si.

Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.

Mulher moderna calça as botas e bota as calças.

A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.

Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

Pão, quanto mais quente, mais fresco.

A promissória é uma questão “de… vida”. O pagamento é de morte.

A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

(Extraído de “Máximas e Mínimas do Barão de Itararé”)