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Novo Ano Diferente

mandala lotusDesejo um feliz ano novo, em que, se Deus quiser, todas as crianças, ao ligarem a tevê, recebam um banho de Mozart, Pixinguinha e Noel Rosa; aprendam a diferença entre impressionistas e expressionistas; vejam espetáculos que reconstituem a Balaiada, a Confederação do Equador e a Guerra dos Emboabas; e durmam após fazer suas orações.

Quero um ano novo em que, no campo, todos tenham seu pedaço de terra, onde vicejem laranjas e alfaces. E na cidade, um teto sob o qual reluza o fogão de panelas cheias.

Desejo um ano novo em que os sonhos libertários sejam tão fortes, que os jovens, com o coração a pulsar ideais, não recorram à química das drogas e não temam o futuro. Sejam, todos eles, viciados em utopia.

Quero um ano novo em que a cada um seja assegurado o direito do emprego, a honra do salário digno, as condições humanas de trabalho e a alegria da vocação. Um novo ano capaz de saciar a nossa fome de pão e de beleza.

Rogo por um ano novo sem políticos mentirosos, autoridades arrogantes, funcionários corruptos, bajuladores. Livre de arroubos infantis, seja a política a multiplicação dos pães sem milagres, dever de uns e direito de todos.

Desejo um ano novo em que o novo governo coloque o País nos eixos, livre a população do pesado tributo da degradação social e tome no colo milhões de crianças precocemente condenadas ao trabalho.

Espero um ano novo em que se apresentem alternativas para que nunca mais um ser humano se sinta ameaçado pela miséria ou privado de pão, paz e prazer.

Um ano novo em que a competitividade ceda lugar à solidariedade; a acumulação, à partilha; a ambição, à meditação; a agressão, ao respeito; a idolatria ao dinheiro, ao espírito das bem-aventuranças.

Um ano novo que seja o último da Era da Fome.

Frei Betto – da ordem dos Dominicanos, filósofo, autor de livros diversos, Prêmio Juca Pato / 1985 com “Batismo de Sangue”. Com o mesmo livro Prêmio Jabuti / 1982 e com “Típicos Tipos-Perfis Literários / 2005. Por seu trabalho em prol dos Direitos Humanos, o primeiro brasileiro a receber o prêmio Paolo E.Borsellino na Itália / 1998. Inúmeros outros prêmios e comendas por seus trabalhos.

(Texto retirado do blog Idade Certa)

Antes e depois das eleições

Realmente existe muita criatividade na cabeça de alguns. Fiquei deliciada com o texto abaixo. Merece registro e ser lido com atenção. Parabéns a quem o escreveu. E vem muito a calhar com o período que estamos vivendo de pré eleições municipais. Aliás tem muito a ver com todos os períodos eleitorais.

Político, Antes e Depois da Posse!


ANTES DA POSSE
 

 

O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que
não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais
para alcançar os nossos ideais
Mostraremos que é uma grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo da nossa ação.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
as nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
os recursos econômicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
Compreendam que
Somos a nova política.


DEPOIS DA POSSE

Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA, linha a linha

“Ratos e Homens”

“Quando o ex-presidente Lula indicou o nome do procurador Joaquim Barbosa para o Supremo Tribunal Federal, em 2003, aplaudiu a si mesmo por mais esse lance da genialidade política que lhe é atribuída. Tornava-se, com isso, “o primeiro presidente deste país” a levar um negro à mais alta corte de Justiça do Brasil – o que não é bem assim, pois antes de Barbosa o STF teve dois ministros mulatos, já esquecidos na bruma dos tempos. Mas o que vale nas coisas da política, em geral, é o que se diz – e o que se disse é que havia ali um plano magistral. O novo ministro, agradecido pela honra recebida, seria um belo amigo do governo nas horas difíceis. Acontece que os melhores planos, muitas vezes, não acabam em bons resultados; o que decide tudo, no fim das contas, são os azares da vida. O grande problema para Lula foi que o único negro disponível para ocupar o cargo era Joaquim Barbosa – e ali estava possivelmente umas das pessoas menos indicadas para fazer o que esperavam dele.

Para começo de conversa, Barbosa dá a impressão de detestar, positivamente, o rótulo de primeiro “ministro negro” do STF. Não quer que pensem que está lá para preencher alguma espécie de “cota”; a única razão de sua presença no STF, julga o ministro, são seus méritos de jurista, adquiridos em anos de trabalho duríssimo e sem a ajuda de ninguém. Nunca precisou do apoio da “comunidade negra”, nem da secretaria da igualdade racial, ou coisa que o valha. Também não parece se impressionar, nem um pouco, com gente de origem humilde. É filho de um pedreiro do interior de Minas Gerais, tornou-se arrimo de família na adolescência e ao contrário de Lula, que não bate ponto desde que virou líder sindical, em 1975, Barbosa começou a trabalhar aos 16 anos de idade e não parou até hoje.

O ministro, além disso, é homem de personalidade notoriamente difícil, sujeita a ásperas mudanças de humor e estoques perigosamente baixos de paciência. É atormentado por uma hérnia de disco que lhe causa dores cruéis e o obriga muitas vezes a ficar de pé durante as sessões do STF. É, em suma, o tipo de pessoa que se deve tratar com cuidado. Lula e o PT fizeram justamente o contrário. Quando Barbosa se tornou relator no processo do mensalão, em 2006, continuaram apostando todas as fichas na histórica impunidade com que são premiados no Brasil réus poderosos e capazes de pagar advogados caros. Descobriram, agora, que o trabalho de Barbosa puxou as condenações em massa no julgamento do mensalão – e jogou uma banana de dinamite no sistema de corrupção que há dez anos envenena a vida pública no Brasil.

A primeira trovoada séria veio quando o ministro aceitou a denúncia da procuradoria contra os quarenta do mensalão. Na época, o único deles com cabeça foi o ex-secretário geral do PT Silvio “Land Rover” Pereira; não contestou a acusação, foi punido com prestação de “serviços comunitários” e acabou resolvendo seu caso a preço de custo. Os demais, guiados pelo farol de Lula, preferiram ficar debochando. Durante o tempo todo, ele sustentou que o mensalão “nunca existiu”. Quando o julgamento começou, disse que não iria acompanhar nada: “Tenho mais o que fazer”. Delúbio Soares, operador-mor do guichê de pagamento do esquema, afirmou que tudo iria acabar em “piada de salão”. O presidente nacional do PT, Rui Falcão, garantiu que o povo estava mesmo interessado é na novela das 9. O que queriam com isso? Imaginavam que Joaquim Barbosa, trabalhando como um burro de carga, com a tortura da dor nos quadris e seu temperamento de porco-espinho, estava achando engraçado ouvir que o seu esforço era uma palhaçada inútil?Lula e sua tropa tinham certeza de que o processo iria se arrastar até o Dia do Juízo Final. O ministro Barbosa, hoje, poderia dizer: “Não contavam com a minha astúcia”. No caso, sua astúcia foi entender a diferença entre “muito tempo” e “nunca”. Tudo seria demorado, claro. Mas ele tinha certeza de que terminaria o seu trabalho – e que os 80% de popularidade de Lula, aí, não iriam servir para nada.

Em sua curta obra-prima Ratos e Homens, um dos clássicos da literatura populista americana, John Steinbeck se inspira num antigo poema escocês para nos dizer que os mais bem cuidados planos deste mundo, sejam feitos por ratos ou por homens, são coisas frágeis; podem ser desfeitos pela roda do acaso, que é indiferente tanto aos projetos mais humildes quanto aos mais ambiciosos e só acabam deixando mágoa e dor. Joaquim Barbosa talvez faça com que os mensaleiros se lembrem disso por muito tempo.”

J.R.Guzzo – Rev.VEJA – 12/set/2012

E está em jogo o mensalão

Visitando o blog do Noblat, li o escrito pelo Brickmann, que admiro como jornalista e comentarista das situações estapafúrdias deste país insano. Deixo aqui para registro de um tempo que será marcante para o futuro da terra verde e amarela.

A hora da Justiça, por Carlos Brickmann

Carlos Brickmann, Brickmann & Associados

 

Toda a política brasileira, neste momento, vive à sombra do julgamento do mensalão – a Ação Penal 470, seu nome no Supremo Tribunal Federal. Há entre os réus personalidades que muitos amam odiar ou santificar – gente que lidera e divide, como José Dirceu.

Enfim, tantos anos depois dos fatos, faz-se justiça. E cabe à imprensa um papel dos mais importantes na ligação entre o Supremo e a opinião pública, exigindo postura e noticiário equilibrados e precisos.

Noticiário equilibrado não é protestar contra qualquer medida que beneficie algum réu, especialmente os mais conhecidos: é analisá-la, verificar se a concessão está ou não legalmente prevista, e qual seu sentido jurídico. Da mesma forma, se algo for negado a algum dos acusados, verifique-se o motivo, a legislação, a interpretação dos ministros.

Não basta um jornalista convicto de que, por ser “do bem”, por ter intenções louváveis, por querer salvar o país e o mundo, está sempre certo, e qual Dom Quixote se mostre disposto a empunhar suas armas. É sempre bom lembrar-se de que, nesses casos, Rocinante, sua montaria, frequentemente não é um cavalo de combate, mas um asno.

Será um julgamento complexo, em que grandes advogados montaram as estratégias de defesa – e, que ninguém se iluda, certamente trarão novos pontos de vista e teses requintadas na defesa de seus clientes. Isso exigirá dos meios de comunicação que se equipem para a cobertura: precisarão de juristas, de repórteres capazes de traduzir a linguagem jurídica para algo inteligível por quem não seja formado em Direito, de checagens e rechecagens, de textos precisos e concisos – pois será preciso apresentar a Sua Excelência, o Consumidor de Informação, um resumo confiável daquilo que está em 50 mil páginas de autos.

E, mais difícil ainda, necessitarão de muita humildade – a capacidade de saber que, quando um ministro do Supremo ou um advogado de primeira linha exprime uma opinião sobre temas jurídicos, por mais estranha que pareça aos repórteres, alguma base deve ter.

É claro que esse tipo de cobertura só pode ser feita por veículos sérios de comunicação: a turma que já sabe o que vai dizer, aconteça o que acontecer, continuará condenando antes da acusação ou absolvendo apesar das provas. Neste caso, o importante é a opinião, e os fatos que se danem.

Teremos de um mês e meio a dois meses de julgamento, caso tudo transcorra normalmente. Mas é um trabalho que pode transferir consumidores de informação de um veículo para outro, dependendo do que apresentem. E, uma vez criado o novo hábito, o antigo cliente pode ter sido perdido para sempre.

Carlos Brickmann – www.brickmann.com.br

Mensalão em julgamento

As brechas jurídicas que podem salvar os réus do mensalão

O iG levantou algumas argumentações das defesas que estão sendo adotadas como estratégias para livrar da condenação os 38 acusados; julgamento começa na quinta

Wilson Lima – iG Brasília | 28/07/2012

Durante o julgamento do mensalão, marcado para a próxima quinta-feira, os aproximadamente 50 advogados dos 38 réus vão adotar todos os tipos de estratégia para tentar demonstrar que seus clientes ou não tiveram participação ou não sabiam do esquema de compra de votos em troca de apoio durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As defesas também vão insistir na tese de que o mensalão sequer existiu.

Dependendo das provas, as argumentações das defesas podem ser acatadas pelos onze ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que, com suas sentenças, vão colocar um ponto final no maior escândalo do governo Lula. Os advogados também vão explorar as brechas na legislação.

Defesa de Valério vai admitir caixa 2 e acusar delator de inventar mensalão

O iG levantou as principais manobras jurídicas e estratégias de defesas que devem ser usadas para absolver os réus do mensalão.

STF NÃO É JUSTIÇA COMUM
Uma questão de ordem que vai ser suscitada logo no início do julgamento diz respeito à competência do STF para julgamento de pessoas sem foro privilegiado. Dos 38 réus, apenas dois ainda mantêm foro privilegiado. Os demais, não. A estratégia é simples: remeter os processos à Justiça Federal de primeira instância. Dessa forma, os indiciados teriam condições de recorrer em várias instâncias até o caso chegar novamente ao STF. Na prática, com tantas possibilidades de recursos, aumenta-se a probabilidade de prescrição de vários crimes atribuídos aos réus do mensalão.

ESQUEMA SEM CHEFE

Essa tese será defendida pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB). De acordo com a argumentação de Jefferson, ele não pode ser condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro em um esquema que não tinha chefe. A defesa tem o seguinte raciocínio: se houve esquema de compra de deputados para aprovação de projetos do Executivo, isso somente poderia ter sido comandando pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sem Lula, não há mensalão.

ATOS DE OFÍCIO I

Várias defesas tentam provar que seus clientes não adotaram atos de ofício que os liguem a um suposto recebimento de propina pelo mensalão. Essa argumentação vale para o crime de corrupção passiva: para ser configurado esse delito, a Procuradoria Geral da República precisa demonstrar que um agente público adotou alguma providência no âmbito do Executivo ou Legislativo após receber uma vantagem indevida. Um exemplo: quando um secretário direciona uma licitação para que uma empresa que lhe deu propina ganhe o contrato, isso se configura em crime de corrupção passiva. Pelo menos doze réus tentam utilizar essa estratégia de defesa e citam até o julgamento do Caso Collor, em 1994, quando também não ficou provada a formalização de um ato de ofício do ex-presidente Fernando Collor de Mello para favorecer o esquema PC Farias.

ATOS DE OFÍCIO II
Ainda como forma de desqualificar a denúncia, os advogados desafiaram a Procuradoria Geral da República a provar os “atos de ofício” dos deputados federais. O problema é que, por conta da imunidade parlamentar, essa tarefa de provar atos de ofícios de deputados caberia à CPI dos Correios, o que não ficou claro, conforme os defensores dos réus do mensalão. Os advogados acreditam que se a Procuradoria Geral não provar no julgamento que os deputados federais mudaram sua posição original em votações, como na Reforma da Previdência em função de recebimento de vantagem indevida, não há como, sequer, falar em “mensalão”.

LAVAGEM DE DINHEIRO SEM CRIME

Pelo menos 30 réus vão tentar demonstrar que não podem ser condenados pelo crime de lavagem de dinheiro porque, simplesmente, não existiu crime anterior. No Código Penal, configura-se apenas como crime de lavagem de dinheiro quando há uma tentativa de dissimular a origem de determinados recursos que são obtidos de forma ilegal. Exemplo: o comerciante que compra uma mercadoria com dinheiro do tráfico de drogas comete crime de lavagem de dinheiro. Mas se ele compra uma mercadoria com dinheiro obtido de fiéis de uma igreja, ele não está cometendo crime. Esse é o entendimento de cinco ministros que, no mês passado, livraram os réus da Igreja Renascer.

PROVAS ILEGAIS
Essa questão já foi debatida durante o recebimento da denúncia em agosto de 2007. Alguns advogados vão tentar demonstrar que algumas provas do esquema do mensalão foram obtidas de forma ilegal. O conjunto probatório em questão é a quebra do sigilo bancário e fiscal de Marcos Valério, obtido pela Procuradoria Geral da República durante a CPI dos Correios. Alguns ministros do STF demonstraram preocupação com o fato de a Procuradoria ter obtido essas provas sem intervenção judicial, apesar de a CPI ter conseguido autorização para obtê-las. Dependendo do entendimento dos ministros, essas provas podem ser validadas ou não.

EU PARTICIPEI? COMO?
Defesas, como a do ex-presidente do PT José Genoino, alegam que não há como condenar alguém por qualquer tipo de ilicitude, se a Procuradoria Geral da República e o ministro relator Joaquim Barbosa não apontam como se deu a participação de determinadas pessoas no esquema do mensalão. As defesas argumentam que elas são apontadas como criminosas apenas em função dos cargos que ocupam, não porque tiveram alguma ligação com o caso (se é que o caso existiu, segundo os advogados). No caso dos nomes menos importantes, como assessores e auxiliares, as duas defesas argumentam que eles não podem ser culpados ou serem incluídos no esquema porque apenas “recebiam ordens” de seus superiores.

A FANTASIA DE ROBERTO JEFFERSON
Em algumas defesas, como as de José Dirceu e Delúbio Soares, o mensalão é fruto única e exclusivamente da mente do ex-deputado federal Roberto Jefferson. Eles acreditam que Jefferson inventou todo o esquema como forma de desvio de foco do escândalo que deu origem à CPI dos Correios, quando o então chefe do Departamento de Compras e Contratações (Decam) dos Correios é flagrado recebendo propina. Os recursos eram obtidos de forma a abastecer o PTB, de Roberto Jefferson.

MENSALÃO NÃO, CAIXA 2!
Estratégia utilizada principalmente por Marcos Valério e Delúbio Soares. Eles querem demonstrar aos ministros que o pagamento de dinheiro a partidos políticos não passou de um esquema de caixa 2 (repasse de verbas não declaradas à Justiça Eleitoral). Dessa forma, eles seriam passíveis de indiciamento por crime eleitoral, cuja pena é de três anos de prisão, se livrando de outras acusações como corrupção ativa e passiva, peculato e lavagem de dinheiro.

Algumas argumentações dos réus do mensalão

José Dirceutambém ataca na peça de defesa uma possível contradição da PGR ao narrar os fatos do mensalão, quando tenta livrá-lo de uma das acusações relacionadas ao crime de Corrupção Ativa. A defesa de Dirceu cita que a PGR aponta o acordo entre Dirceu, Delúbio Soares, José Genoíno e Sílvio Pereira para compra de apoio político foi realizado em 2004, mas a votação relacionada à esse encontro ocorreu em 2003. “Ressalte-se que essa falta de lógica nesta cronologia é de responsabilidade exclusiva da denúncia”.

José Genoínobusca desmembrar o processo do âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF). A estratégia do ex-presidente do PT é tentar, antes mesmo do início do julgamento, que o seu caso seja julgado na justiça comum. Motivo: julgado em primeira instância, abre-se possibilidade para inúmeros recursos. Ele também argumenta que na denúncia da PGR não há “vínculo concreto” entre os denunciados e a infração penal imputada.

Anderson Adautona acusação de crime de corrupção ativa, os advogados argumentam que a Procuradoria Geral da República (PGR) cometeu um “grave e inaceitável contradição lógica”. Os advogados argumentam que a PGR acusa Adauto de ter intermediado a compra de apoio político do então deputado Romeu Queiroz (na época no PTB). Mas que essa conversa ocorreu depois da aprovação das Propostas de Emendas Constitucionais (PEC) da reforma tributária e previdenciária.

Roberto Jeffersonargumenta que não há como falar em venda de apoio político para aprovação de projetos do governo sem que o presidente na época, Luiz Inácio Lula da Silva, não tivesse sido denunciado. A defesa classifica esse fato como uma “omissão” intolerável. Sobre o crime de lavagem de dinheiro, os advogados de Jefferson argumentam que os R$ 20 milhões recebidos pelo PTB pelo PT tiveram origem lícita. O crime de lavagem de dinheiro somente se configura quando há origem ilícita de determinado recurso.

Delúbio Soareso ex-tesoureiro do PT refuta a alegação de compra de apoio político com base em um estudo mostrando a postura da base aliada em votações importantes. No ‘estudo’, cita-se que em votações mais importantes como a reforma da previdência, o projeto teve adesão principalmente pelos votos vindos da oposição, no caso o PSDB. Também argumenta na sua defesa que sofreu “supressão do direito de defesa”, durante oitivas realizadas em Minas Gerais, no início de 2009.

Marcos Valérioacusado de ser o operador do mensalão, a defesa de Valério faz um compêndio contra a cobertura da mídia e afirma “É raríssimo caso de versão acusatória de crime em que o operador do intermediário aparece como a pessoa mais importante da narrativa, ficando mandantes e beneficiários em segundo plano, alguns, inclusive, de fora da imputação, embora mencionados na narrativa, como o próprio ex-presidente Lula”

A falência múltipla dos órgãos públicos

 

Os corruptos ajudam-nos a descobrir o País. Há sete anos, Roberto Jefferson nos abriu a cortina do mensalão. Agora, com a dupla personalidade de Demóstenes Torres, descortinamos rios e florestas e a imensa paisagem de Cachoeira. Jefferson teve uma importância ideológica.

Cachoeira é uma inovação sociológica. Cachoeira é uma aula magna de ciência política sobre o Sistema do País. Vamos aprender muito com essa crise. É um esplendoroso universo de fatos, de gestos, de caras, de palavras que eclodiram diante de nossos olhos nas últimas semanas. Meu Deus, que riqueza, que profusão de cores e ritmos em nossa consciência política! Que fartura de novidades da sordidez social, tão fecunda quanto a beleza de nossas matas, cachoeiras, várzeas e flores.

Roberto Jefferson denunciou os bolchevistas no poder, os corruptos que roubavam por “bons motivos”, pelo “bem do povo”, na base dos “fins que justificam os meios”. E, assim, defenestrou a gangue de netinhos de Lenin que cercavam o Lula que, com sua imensa sorte, se livrou dos mandachuvas que o dominavam. Cachoeira é uma alegoria viva do patrimonialismo, a desgraça secular que devasta a história de nosso País. Sarney também seria ‘didático’, mas nada gruda nele, em seu terno de ‘teflon’; no entanto, quem estudasse sua vida entenderia o retrato perfeito do atraso brasileiro dos últimos 50 anos.

Cachoeira é a verdade brasileira explícita, é o retrato do adultério permanente entre a coisa pública e privada, aperfeiçoado nos últimos dez anos, graças à maior invenção de Lula: a ‘ingovernabilidade’.

Cachoeira é um acidente que rompeu a lisa aparência da ‘normalidade’ oficial do País. Sempre soubemos que os negócios entre governo e iniciativa privada vêm envenenados pelas eternas malandragens: invenção de despesas inúteis (como as lanchas do Ministério da Pesca), superfaturamento de compras, divisão de propinas, enfrentamento descarado de flagrantes, porque perder a dignidade vale a pena, se a grana for boa, cabeça erguida negando tudo, uns meses de humilhações ignoradas pelo cinismo e pela confiança de que a Justiça cega, surda e muda vai salvá-los. De resto, com a grana na ‘cumbuca’, as feridas cicatrizam logo.

O governo do PT desmoralizou o escândalo e Cachoeira é o monumento que Lula esculpiu. Lula inventou a ingovernabilidade em seu proveito pessoal. Não foi nem por estratégia política por um fim ‘maior’ – foi só para ele.

Achávamos a corrupção uma exceção, um pecado, mas hoje vemos que o PT transformou a corrupção em uma forma de governo, em um instrumento de trabalho. A corrupção pública e a privada é muito mais grave e lesiva que o tráfico de drogas.

Lula teve a esperteza de usar nossa anomalia secular em projeto de governo. Essa foi a realização mais profunda do governo Lula: o escancaramento didático do patrimonialismo burguês e o desenho de um novo e ‘peronista’ patrimonialismo de Estado.

Quando o paladino da moralidade Demóstenes ficou nu, foi uma mão na roda para dezenas de ladrões que moram no Congresso: “Se ele também rouba, vamos usá-lo como um Omo, um sabão em pó para nos lavar, vamos nos esconder atrás dele, vamos expor nosso escândalo por seu comportamento e, assim, seremos esquecidos!”

Os maiores assaltantes se horrorizaram, com boquinha de nojo e olhos em alvo: “Meu Deus… como ele pôde fazer isso?…”

Usam-no como um oportuno bode expiatório, mas ele é mais um ‘boi de piranha’ tardio, que vai na frente para a boiada se lavar atrás.

Demóstenes foi uma isca. O PT inventou a isca e foi o primeiro a mordê-la. “Otimo!” – berrou o famoso estalinista Rui Falcão – “Agora vamos revelar a farsa do mensalão!” – no mesmo tom em que o assassino iraniano disse que não houve holocausto. “Não houve o mensalão; foi a mídia que inventou, porque está comprada pela oposição!” Os neototalitários não desistem da repressão à imprensa democrática…

E foi o Lula que estimulou a CPI, mesmo prejudicando o governo de Dilma, que ele usa como faxineira também das performances midiáticas que cometeu em seu governo. Dilma está aborrecida. Ela não concorda que as investigações possam servir para que o Partido se vingue dos meios de comunicação e não quer paralisar o Congresso. Mas Lula não liga. “Ela que se vire…” – ele pensa em seu egoísmo, secretamente, até querendo que ela se dane, para ele voltar em 14. Agora, todo mundo está com medo, além da presidente. O PT está receoso – talvez vagamente arrependido. Pode voltar tudo: aloprados, caixas 2 falsas, a volta de Jefferson, Celso Daniel, tantas coisinhas miúdas… A CPI é um poço sem fundo. O PMDB, liderado pelo comandante do atraso Sarney, também está com medo. A velha raposa foi contra, pois sabe que merda não tem bússola e pode espirrar neles. Vejam o pânico de presidir o Conselho de Ética, conselho que tem membros com graves problema na Justiça. Se bem que é maravilhoso o povo saber que Renan, Juca, Humberto Alves, Gim Argello, Collor serão os ‘catões’, os puros defensores da decência… Não é sublime tudo isso? Nunca antes, em nossa história, alianças tão espúrias tiveram o condão de nos ensinar tanto sobre o Brasil. A cada dia nos tornamos mais sábios, mais cultos sobre essa grande chácara de oligarquias. E eu estou otimista. Acho que tudo que ocorre vai nos ensinar muito. Há qualquer coisa de novo nessa imundície. O mundo atual demanda um pouco mais de decência política. Cachoeira, Jefferson, Durval Barbosa nos ensinam muito. Estamos progredindo, pois aparece mais a secular engrenagem latrinária que funciona abaixo dos esgotos da pátria. A verdade está nos intestinos da política.

Mas, o País é tão frágil, tão dependente de acasos, que vivemos com o suspense do julgamento do mensalão pelo STF.

Se o ministro Ricardo Lewandowski não terminar sua lenta leitura do processo, nada acontecerá e a Justiça estará desmoralizada para sempre.

ARNALDO JABOR – O Estado de S.Paulo – 17/4/12

Há 10 anos atrás

De vez em quando paro pra ler coisas que escrevi e guardei. De repente me deparo com leituras de coisas antigas mas que, infelizmente, ainda se aplicam tanto ao presente que até acho importante registrar o pensamento e a constatação. Mudam um pouco as moscas, mas as situações permanecem. Por isto reproduzo o texto abaixo escrito há 10 anos atrás!

29.06.2002

Amanhã o Brasil será penta campeão. Pelo menos é o que todos esperam. Estaremos todos ligados na TV logo cedo, sofrendo e torcendo. As crianças se juntarão, os adultos encontrarão justificativa pra beber logo cedo, gritar e, também por que não, para se juntarem. Todos são um pouco juízes, um pouco técnicos, críticos, com certeza, de cada homem em campo e, do coitado do goleiro, nem se fala!

Todos darão palpites, gritarão, soltarão fogos, chorarão de alegria ou tristeza, estarão todos muito envolvidos. E eu, cá comigo, pequeno ser neste mundão, fico até constrangida pensando. Aqueles pobrezinhos, mendigos, com fome, com sede, sem teto, sem vida, também estarão se juntando ao jogo final. Bebendo, lógico!

E eu cá me pergunto, porque me pergunto sempre: como seres humanos podem viver assim? Com fome. Com sede. Sem amor. Sem perspectivas. Reproduzindo porque é o que sabem fazer – isso não se aprende, é instintivo. Como seres humanos podem estar tão depauperados? Ninguém nota ou vê? O país é dirigido por quem? Por um ser humano?

E então lembro que a direção geral e global é de um sociólogo! Que tem uma esposa antropóloga! Um homem que se diz vítima de um sistema anterior auferido pelo país em que vive! Foi expurgado. Viveu anos de exílio longe da pátria amada. Pátria? Amada? Como?  Olho esta terra que habito tão cheia de pobreza, tão completa de falta de cultura, tão chorosa por seus mortos levados pelo tráfico, pelas drogas, pelo senso de poder. Levados, até, porque não se sabe o porquê. Por balas perdidas. Por poderes que se estabelecem. Por gente que nem se sabe de onde chega.

Realmente é o Fim dos Tempos! E que tempos! Será que um dirigente de país, não consegue colocar ordem? Fico estarrecida, mas começo a achar que, em outros países, homens bombas se arremessam e morrem tantos inocentes, leigos, civis! Isto pra destruir laços importantes, pessoas “chaves”. Meu Deus, onde se morre sem saber o porquê. Onde se vive sem saber como. Onde cada um tem de se mesclar. Onde você sai e não sabe se volta. Onde tudo pode ser quase ou um total nada, por que não se usar formas de destruição total? Por que não jogar bombas onde se sabe morrerão inocentes também, mas se destruirá muita gente (???) inútil? Porque se sabe que se não destruir formas inúteis, as úteis serão – com certeza – exterminadas sem motivo.

Fico tensa. Penso. Vai acabar acontecendo. O povo será levado a ir de encontro ao poder do mal. E haverá destruição – cara a cara, pescoço a pescoço, corpo a corpo. Tempos bíblicos, cabalísticos, temerários! Pais contra filhos, filhos contra pais. Irmão contra irmão, famílias contra famílias. Uma total guerra. A maior de todas as guerras. O homem contra o homem. E não só como em tempos anteriores guerras de homens contra homens, com armas simples, olho por olho – dente por dente. Não! Agora tudo será maior e pior. E, cabalisticamente, biblicamente, espiritualmente, será o final de um tempo. Tudo se mostra de acordo com as prescrições.

Está aí um mundo que não dá pra entender, de forma nenhuma aceitar. Viver? Como? Qual a forma? Realmente se chega ao final dos tempos. Crendices, até, que consideramos, pois – de verdade – não achei em nenhum lugar escrito: – a 1.000 chegará… de 2.000 não passará. Um milênio de medos guardados, quando atingimos o 2000 e 2001.

Mas, pensando bem, se crermos em “crendices” 2.000 tem um longo tempo! Vai até 2.999! Só que estamos vivendo um século iniciando com barbáries nunca vistas ou sabidas. Com governos desgovernados. Com titulares sem saber o que falam em todos os cantos do mundo. E agindo ao contrário do que falam.

O Brasil é grande! Grande demais! Em espaço terreno. Só. É dono de um povo pobre, inculto, analfabeto, até. É um país de “caixinhas”. De propinas. De “concursos” mal executados. De educação discutível. De formação inexistente. De justiça insolvente. De segurança que virou lenda.

Não consigo ter respeito por este país! Como posso levar educação aos meus descendentes? Tenho 55 anos! Não aprendi muito ou tive formação pra ser patriota! Como podia eu transmitir patriotismo aos meus? Acho, com certeza, que minhas filhas, quase balzaquianas, nem sabem além do dicionário o que é ser patriota.  Meus netos? O primeiro tem 12 anos. Vai precisar buscar no dicionário o que é “patriotismo”. Ou então, candidamente, vai me perguntar: – vó o que é, exatamente, esta palavra? Porque o dicionário será conciso e preciso. E, então, ele vai me falar tranqüilo: – vó, me explica do seu jeito,  mais fácil e tranqüilo.

E eu vou ter de falar sobre o amor à Pátria. Como falar e explicar tudo o que penso? Que amor? Que Pátria?   Que nosso país, já faz tempo, é governado por outras forças? Que vamos ter eleições neste ano, pra eleger presidente da república, governadores de estados, deputados federais e estaduais, senadores. Que vou votar, mais uma vez, tentando falar via voto! Que acho tudo muito falso e errado! Que até já assisti de perto a criação de um partido, no qual eu acreditava. E hoje nem neste partido consigo acreditar! Vi, assisti, senti, olhei, muitas e muitas vezes! E hoje, só posso ver o tal do meu país assim, como está!

Comido. Vencido. Vendido. Falido. Comandado pelo mau caratismo. Trucidado pelo tráfico. Traficantes mandando e reinando. Analfabetos reinando sobre analfabetos, lógico! Cegos levando cegos, com certeza. Surdos, mudos, deficientes de todas as espécies. Deficientes mentais reinando.

E… que país é este? Como posso ensinar aos próximos o que é patriotismo? Como posso falar de vida para os que estão chegando, se a morte está imperando aqui em todas as suas formas? Como falar em respeito? E em respeito ao próximo? Quem é o próximo? E o que é o próximo? É o primeiro da lista que vem? Ou é o sujeito mais perto de nós, física, emocional ou e só… o que vem depois de nós? E o próximo será preservado? O que será do próximo? E como  transmitir aos meus próximos?

Há que surgir uma força! Uma força grande do Bem,pra estabelecer a tão cantada PAZ neste mundo perdido no espaço infinito!

“A terra é azul!”

E possa ser sempre assim,azul do céu e do mar.