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Paz mortal

pelicanos

O sol é dominante, como uma tocha lá no alto.

Os jatos cruzam ao seu lado
E os foguetes saltam feito sapos.
A paz não é mais preciosa.
A loucura circula como lírios
em volta da lagoa…
Os artistas pintam suas cores
vermelhas, verdes, amarelas!
Os poetas rimam sua solidão,
Os músicos morrem de fome,
Os escritores erram o alvo,
Mas não os pelicanos,
não as gaivotas.
Os pelicanos mergulham,
Sobem arrepiados
quase mortos
Com peixes radioativos
em seus bicos.
O céu se acende de vermelho,
As flores desabrocham
como sempre,
Mas cobertas de uma fina poeira
de combustível e cogumelos.
Cogumelos envenenados!
E em milhões de alcovas,
os amantes se entrelaçam
Perdidos e doentes
como a paz!
Não podemos acordar?
Temos de continuar, amigos…
E morrer enquanto dormimos.

(Charles Bukowski)

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O tempo e as jabuticabas

jabuticaba em flor

Contei meus anos e

Descobri que terei menos tempo para viver

Daqui para a frente do que já vivi até agora…

Tenho muito mais passado do que futuro…

Sinto-me como aquele menino

Que recebeu uma bacia de jabuticabas…

As primeiras, ele chupou displicente…

Mas percebendo que faltam poucas,

Rói o caroço…

Já não tenho tempo

Para lidar com mediocridades…

Não quero estar em reuniões

Onde desfilam egos inflados…

Inquieto-me com invejosos

Tentando destruir quem eles admiram,

Cobiçando seus lugares, talentos e sorte…

Já não tenho tempo

Para conversas intermináveis…

Para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha…

Já não tenho tempo para administrar

Melindres de pessoas que,

Apesar da idade cronológica,

São imaturas…

Detesto fazer acareação de desafetos

Que brigaram pelo majestoso

Cargo de secretário geral do coral…

“As pessoas não debatem conteúdos…

Apenas os rótulos…”

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos…

Quero a essência…

Minha alma tem pressa…

Sem muitas jabuticabas na bacia

Quero viver ao lado de gente humana, muito humana…

Que sabe rir de seus tropeços…

Não se encanta com triunfos…

Não se considera eleita antes da hora…

Não foge de sua mortalidade…

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade…

O essencial faz a vida valer a pena…

E para mim,

Basta o essencial!

Rubem Alves – filósofo, teólogo, psicanalista, professor, escritor…. E, poeta….

 

jabuticabeira

Este poema me toca profundamente. É realmente uma constatação da vida que caminha , uma verificação do quanto o essencial vai tomando proporção e se tornando o mais importante. Sonia

Carta a amigo

OBS: esta carta não escrevi hoje, mas relendo-a se aplica em muitos momentos meus. O amigo a quem me reporto consegui localizar na lembrança apesar do tempo. E a ele escreveria novamente hoje se precisasse de um amigo pra me ouvir em palavras ou silêncio.

Querido, hoje eu queria um amigo.

Alguém muito especial, muito querido, muito sensível. Achei nesse momento que você – justo você – me entenderia, me ouviria ou até ficaria em silêncio a escutar minhas não palavras. Talvez você me pergunte, como eu me perguntei, porque você. Creio que porque um dia foi especial comigo.

Talvez pelas papoulas, pelos sonhos loucos e lindos, pelo almoço à beira do lago, povoado de quimeras e olhares feitos de puro carinho. Foram fatos momentâneos, bem sei. Foram dias soltos no tempo da vida real. Mas reais ou utópicos, foram maravilhosos. E hoje que eu queria tanto um amigo, quem melhor do que você pra me entender?

Hoje, quando creio que a vida é feita de momentos, quando não creio em amor pra sempre, quando meu sorriso já não é tão jovem e despreocupado, quando uma lágrima quase sempre brinca teimosa prestes a rolar se não for contida, quando já não sou a jovem que você falava ou chamava sorrindo, hoje eu queria você, amigo.

Não sei nem se eu diria o que penso, o que tenho, o que quero. Talvez eu não lhe contasse desses muitos anos de vida em que  nem soube de mim. Mas você reconheceria em meus olhos muita realização, assim como inúmeras decepções. Talvez visse muita vida reprimida, muito conformismo e muito querer bem. Mas sei que entenderia eu lhe dizer – preciso de você hoje – e depois não lhe contar nada.

Você, que sempre eu disse ser um menino que cresceu depressa, mas se esqueceu disso, talvez pudesse hoje me devolver essas palavras. Você, que muitas vezes eu chamei de máquina, cheio de preceitos, preconceitos e normas estabelecidas, talvez hoje pudesse me ver a alma.

Falei tantas vezes que você precisava ser mais gente, só gente, esquecendo a máquina em que o mundo quer nos transformar, hoje sou quase a engrenagem que tanto repudiava.

Hoje o entendo mais, menino grande, sei que as circunstâncias pesam mais que os sentimentos e as revoltas. Hoje posso lhe falar como gente grande, infelizmente. Mas posso ainda concordar com o Pequeno Príncipe quando ele dizia “as pessoas grandes são tão complicadas…”. Triste quando a gente começa a enxergar um chapéu onde a  criança desenhou uma jiboia que engoliu um boi. E triste quando a gente deixa um baobá crescer em nosso planeta. Dorido quando a gente se torna o rei que sabe contar mas não tem a quem governar. E enlouquecedor quando vê que se tornou um acendedor de lampiões e que, a cada anoitecer, sem mesmo ter visto o por do sol com suas maravilhas, o que sabe é só acender um facho de luz  iluminar algo quase desprovido de vida e sentido.Realmente quando se chega a isso tudo, é melhor deixar que a serpente morda e acabe com tudo através de seu veneno.

Mas, falando com você agora, parece que entendi muita coisa que estava imperceptível. Percebo que não sou a rosa que espirra frágil ao vento precisando de redoma para ampará-la.

Também não sou forte o bastante pra resistir ao nascer da grama e ervas daninhas ao meu redor. Nem pra resistir ficar só por muito tempo, sem trato e cuidados. Resisto a muita coisa, mas não a tudo ainda.

Sou quase pequena e simples e quase grande e complicada. Preciso aprender a não ser gente grande pra poder ser pequena sempre. Quem sabe assim eu possa ser mais feliz e satisfeita, não carecendo de veneno pra retornar ao meu planeta pequenino, mas maravilhoso e perfeito pra mim.

Agradeço, amigo querido, por essa escuta silenciosa que me proporcionou. Era tudo o que eu precisava neste momento.

Saudade da flor

Que saudade de saber que existo,

que no mundo tem flores,

carinho, ternura, tem um mundo dentro de mim.

Saudade de minha mão presa suavemente entre outras mãos.

Sem nada dizer, sem nada fazer, sem nada pedir.

Tudo completo.

Saudade de ser flor.

Saudade do amor!

SK  mar/73

Plante seu jardim

 

 

“Transforme a confusão num belo jardim: essa é sua tarefa!

Plante flores cheirosas (virtudes) para que as pessoas possam apreciá-las quando passarem pelo seu jardim (vida): isso é sabedoria!

Deixe que o perfume do seu jardim dê prazer a todos ao permitir que a doçura chegue em seus corações e a admiração em suas mentes.

Remova as ervas daninhas (negatividades) – visíveis ou escondidas – e deixe que seu jardim se torne um pomar de generosidade.”

Enquanto eu viver….

 

“Sei que amanhã

Quando eu morrer

Os meus amigos vão dizer

Que eu tinha um bom coração

Alguns até hão de chorar

E querer me homenagear

Fazendo de ouro um violão

Mas depois que o tempo passar

Sei que ninguém vai se lembrar

Que eu fui embora

Por isso é que eu penso assim

Se alguém quiser fazer por mim

Que faça agora.

Me dê as flores em vida

O carinho, a mão amiga,

Para aliviar meus ais.

Depois que eu me chamar saudade

Não preciso de vaidade

Quero preces e nada mais”

(Nelson Cavaquinho)

“Se pudéssemos ter consciência do quanto nossa vida é passageira, talvez pensássemos duas vezes antes de jogar fora as oportunidades que temos de ser e de fazer os outros felizes!! “